Luiz da Cunha pousou o cadaver na parede do adro. Ouviu passos. Eram jornaleiros que sahiam para o trabalho. Chamou dous com promessa de boa paga. Mandou-os abrir uma sepultura no adro. Desceu a depositar o cadaver. Beijou-o na face. Assistiu ao attêrro. Pagou aos operarios, e montou o cavallo de Liberata, que farejava o sangue de sua dona.
—Ainda me não venceste, demonio!—Hei de vingar-me da sociedade que me quebrou o ultimo amparo! Hei de vingar-te, Liberata!
Era um como rugido facinoroso esta exclamação.{171}
[XVIII.]
[A LUZ DO AMOR NAS TREVAS DA DEMENCIA.]
Desde agosto de 1842, época da apparição de Luiz da Cunha em Lisboa, Assucena cahiu n'uma tristeza inconsolavel, n'um ancioso desejo de morte que, continuamente, pedia a Deus, apesar dos seus principios de resignação, e abandono á vontade divina.
Nem Rosa Guilhermina, nem o padre Madureira podiam nada contra a misanthropia da neta do arcediago. Receavam-lhe a demencia, porque, muitas vezes, eram desconnexas as suas ideias, e incompativeis até com a sua religiosidade. Tentaram sahir com ella, por consentimento do visconde condoido, a uma distracção em viagem. Assucena recusava-se, e rejeitava com enfado as opportunas instancias de sua mãe.
Queriam adivinhal-a, e não achavam vereda que os guiasse. Sabiam que a sua devoção era cada vez mais fervente, e descobriram os cilicios com que cingia a cintura, e as disciplinas que lhe arrancavam gemidos alta noite.
As admoestações não aproveitavam nada. Esperavam todos os dias encontral-a douda, e o que de certo lhe faltava, para que assim a julgassem, era alguma acção peccaminosa, que desmentisse a rigidez do seu ascetismo.
Nunca perguntou por Luiz da Cunha, mas pedia sempre á Virgem Mãe que fosse a protectora d'elle, e o remisse da condemnação eterna, descontando-lhe os sofrimentos d'este mundo.