—Salvaste-me, Luiz. Morro contente assim... Agora é que as nossas contas estão saldadas. Tu tiraste-me da morte da alma, e eu quiz defender-te da morte do corpo. É um bom fim o meu! As mulheres virtuosas... raras são as que assim morrem... Se me não encontrasses perdida de todo, não poderias nada sobre mim... Fogem-me os sentidos, Luiz... É a vida... Deixa-me expirar bem perto do teu coração... Como é bom morrer-se com o perfeito juizo para se conhecer a pessoa que se deixa... com tanta saudade.. Que dôr!... o peor é deixar-te pobre... e... só... no mundo.
Liberata expirou.
As primeiras e ultimas lagrimas de Luiz da Cunha cahiram sobre as faces mortas d'essa mulher......
São quatro horas da madrugada.
Bateram á porta do parocho da matriz de Pinhel. O padre vem á janella e vê um vulto disforme na escuridão.
—Quem é?
—Um passageiro que pede a v. s.ª licença para poder{170} enterrar o cadaver d'um seu companheiro de jornada, morto de repente.
—Eu não concedo que se enterre ninguem sem ordem da authoridade civil. Não conheço o senhor, e não sei se se trata de esconder algum crime debaixo das telhas sagradas. Espere que seja dia para se lavrar auto, e depois fallaremos.
O compassivo pastor deu-lhe com a janella na cara, e retirou-se instado por uma voz roufenha de mulher que lhe recommendava carinhosamente que se não constipasse, que estava suado.
Era saber muito!