Aos longos dias da desgraça seguiu-se a longa noite da demencia!{177}

[XIX.]

[UM VEIO NOVO A EXPLORAR.]

E Luiz da Cunha?

Deixára Liberata na sua ultima paragem, e fôra ao concelho de Ribeira de Pena exercer o seu officio. Os lucros de dois annos de contrabando perdêra-os na fatal tomadia. Estava, outra vez, pobre: faltava-lhe a coragem animadora de Liberata; cahiu n'um estupôr moral, em que o pensamento do suicidio muitas vezes lhe esvoaçou sobre o cabo do punhal, sem poder entrar com elle no coração. Luiz da Cunha não podia aniquilar-se.

Os jornaes gritaram contra o empregado publico, de novo contrabandista. O ministro, que já não era o mesmo que o despachára, demittiu-o. Demittido, desencadearam-se contra elle as malevolencias do concelho, onde nunca praticara erro de officio, que não dirigia, nem extorsão, que não precisava. Retirou-se para o Porto, onde chegou na memoravel noite da resistencia á contra-revolução de 9 de Outubro de 1846. Associou-se ao motim popular que prendêra o duque da Terceira. Deu morras ao ministerio reaccionario, indicando-se victima dos Cabraes.

Entrou no serviço da junta governativa, foi tenente quartel mestre d'um batalhão de artistas, alcançou o despacho de director d'uma alfandega da raia, e distingiu-se com bravura em Torres Vedras, e Val-Passos.

Quando os hespanhoes interventores entraram em Valença, o tenente quartel mestre arrostou com impotente heroismo o collosso. Metteu-se debaixo das balas, e as balas,{178} cruzando-se-lhe em redor, respeitaram aquelle homem, que parecia ter o sêllo invulneravel do primeiro assassino, a prerogativa de Caim.

Desarmada a junta suprema, Luiz da Cunha ficou no Porto, vivendo de pequenos emprestimos que alguns amigos politicos lhe faziam, e de pequenas esmolas que algum membro da junta patrioticamente lhe dava. Assim viveu até 1850, na agua furtada de uma estalagem da rua de S. Sebastião, d'onde foi expulso porque não pagava. Casualmente, deparou um seu conhecido camarada que servira a junta, como sargento de cavallaria. Convidado por elle, foi ser seu hospede ahi para os sitios do Marco de Canavezes. Luiz da Cunha conheceu que o seu hospedeiro amigo era um homem tambem mysterioso. O ex-sargento de cavallaria, nos primeiros dias, teve a delicadeza de não catechisar o seu hospede aos principios da communidade sem as theorias socialistas. Fartava-o regaladamente á sua mesa; levava-o de patuscada a casa da sua amazia; punha á sua disposição uma rica egua de raça para passeios, e ensinava-o a matar perdizes com finissima pontaria.

Uma noite acabavam de cear, e Luiz da Cunha historiou o mais sentimentalmente que podia a morte da heroica Liberata. José do Taboado (era a graça do hospitaleiro), enthusiasta pela gloria, propôz uma ovação á memoria de Liberata, a qual, como todas, foi freneticamente recebida pela senhora Joaquina Vêsga, intima do proponente, e bem aceita ao hospede enternecido.