—Sim.
—Viu-o alguma vez n'estes sitios?—perguntou o padre suspeitoso.
—Vi... passou, ha um anno, na estrada. Estava eu no portão pela parte de dentro. Espreitei, quando ouvi o tropel d'um cavallo. Era elle.
—Fallou-lhe?
—Não; nem elle podia vêr-me... Tem as barbas até á cintura; vestia uma jaqueta de pelles, e ia tão triste, tão macilento!... Teria elle fome?
—E se elle lhe pedisse de comer?
—Dava-lhe tudo quanto tenho! Para que quero eu esta casa, esta quinta, estas cadeiras, esta camiza, se eu morro muito cêdo?! Que venha, e eu dou-lhe tudo! Não{176} quero que o persigam, já disse! Hei de accusar diante de Deus quem o matar!
Padre Madureira viveu na quinta de Caldellas alguns mezes. Quando se retirou, deixou Assucena aos cuidados de um egresso, vindo de Lisboa por escolha d'elle. Era irremediavel a demencia. Assucena recusava receber facultativos, e irritava-se em frenesis quando lhe pediam que se deixasse visitar por um medico. Se fugia á vigilancia do egresso, ia ao portão fitar o ouvido; ouvindo tropel de cavallo, espreitava; desenganada da sua louca esperança, sentava-se na pedra, chorando com mavioso mimo, com infantil resentimento, até que o seu guarda, inventando promessas, a conduzia a casa.
E nunca a tão bella alma d'aquella mulher resurgiu das trevas!