—Tens razão......................


Dias depois os jornaes do Porto pediam força para debellar uma poderosa quadrilha de ladrões que assaltavam as casas famosas em dinheiro. Citaram a morte d'uma senhora, rica proprietaria do Douro; a de um padre muito rico das circumvisinhanças de Villa Real; e varios assaltos em fórma a casas inutilmente defendidas. Um destacamento de infanteria dera caça aos salteadores, que resistiram com intrepidez admiravel. Contava-se o heroismo do chefe, que saltava vallados com um ferido no arção da sella. O ferido era Luiz da Cunha.

Não obstante a escaramuça, a cohorte estendia por longe o terror. Proprietarios isolados refugiavam-se nas povoações, e as povoações velavam armadas com os olhos fixos nas fogueiras que os ladrões acendiam nas quebradas das serras. Ninguem, porém, ousava desalojal-os das suas tendas. As almenaras ardiam até ser dia; as roldas e sobre-roldas velavam durante a noite, e Luiz da Cunha, abraçado á sua clavina de dous cannos, dormia tranquillo com a face sobre os apparelhos da sua egua fiel.

José do Taboado não mentira. O filho de João da Cunha e Faro tinha ouro, muito ouro, podia retirar-se com um passadio honesto, e adquirir até uma reputação honrada. O seu pensamento era passar á Africa em 1853, com o louvavel intuito de commerciar em generos licitos com a metropole. José do Taboado promettêra-lhe acompanhal-o, e, para isso, liquidava os ultimos saldos com alguns proprietarios, incursos na condemnação de Proudhon.

O filho de Ricarda tinha quarenta e um annos. Julgal-o-iam de cincoenta; mas os cabellos brancos não tinham nada com o vigor feroz da alma. O seu fito era voltar{180} a Lisboa, rico, alardeando a passada infamia, com tanto que arrastasse com correntes de ouro após si o respeito publico. Desejava lançar aos pés de Assucena esse dinheiro que ella lhe emprestára. Desejava levantar no cemiterio publico um faustuoso monumento a Liberata, como insulto ás mulheres do «grande mundo.» Quatro annos de fortuna, e o seu sonho seria visto á luz da realidade! A sua fama teria alguma cousa de horrivel heroismo. O seu nome, partido o braço vingativo, seria levado aos vindouros como a tradicção d'um meteoro que abrira um rasto de fogo entre os homens.

José do Taboado, que não se alteava ás concepções arrojadas do camarada, admirava-o como um grande homem, gostava de ouvil-o, e dizia que a sua linguagem não parecia d'um simples escrivão do juizo ordinario. Levava-o a casa de cavalheiros de nome, que hospedavam affavelmente o salteador (não importa explicar o disparate), e os cavalheiros maravilhavam-se do estylo puritano do supposto Neves, e mais ainda da vasta noticia que elle dava de paizes estrangeiros, dizendo, ao mesmo tempo, que nunca os vira.

Encontraram-se uma noite em casa d'um fidalgo de Basto, onde concorreram outros, discutindo linhagens. Excepto os presentes, que eram todos representantes de illustres governadores das possessões portuguezas, todos os outros eram netos de almocreves, de lavradores, e até de ciganos, afóra os eivados de sangue judeu, que eram muitos.

Um dos detractores citou, como em distracção, seu tio João da Cunha e Faro. Luiz, agitado por tal nome, prendeu astutamente o incidente do parentesco á conversação, dizendo que conhecêra João da Cunha e Faro, em Lisboa, onde fôra caixeiro em 1838. Perguntou se morrêra.

—Morreu doudo—respondeu o senhor Bernardo de Malafaia e Alvim de Castro e Leite Pereira de Menezes e Sá Corrêa de Sepulveda e Cunha e Faro &c. &c. &c.—Morreu doudo. Foi o malvado bastardo que o matou.