—O bastardo?!—atalhou Luiz.
—Sim: o filho d'uma mulata que elle roubou em Coimbra...{181}
—Sabes se já morreu esse homem?—perguntou um senhor com quinze appellidos.
—Não sei; mas é de crêr que sim. Ainda vos não contei a passagem dos ossos?
—Já; mas conta-a ao amigo Neves, que é romantica.
—Pois lá vai. Haverá sete annos que eu fui a Lisboa e hospedei-me em casa de meu primo Ignacio da Cunha, que succedeu no vinculo de meu tio João da Cunha. Era no verão, e resolvemos passar alguns dias n'uma bonita casa de campo que meu primo tem em Bemfica. Foram comnosco o primo Alvaro de Castro, o primo conde de Santa Justa, o primo D. Pedro de Malafaia, o primo D. Antonio de Alvim, o tio Monsenhor Menezes, &c. &c. &c. Estavamos sentados debaixo d'um caramanchão, e disse o primo João da Cunha, apontando para a álea das amoreiras: «Alli foi que morreu a amante de meu tio João.» Contou-nos que um velho criado, morto alguns mezes antes, lhe contára tudo, e lhe dissera o sitio onde fôra enterrado o marido e assassino d'essa tal Ricarda, porque os criados deram cabo d'elle.
Quando ouvimos isto, tivemos, todos á uma, desejos de procurar os ossos do tal marido. No outro dia, viemos cavar no sitio, e com effeito demos com os ossos, e o primo D. Antonio de Alvim, mexendo na terra, encontrou um riquissimo annel de brilhantes com uma enorme esmeralda. Procuramos mais, e achamos a folha de um punhal com as letras que diziam «Rio de Janeiro.» Não topamos mais nada. O que eu posso dizer-lhe, senhor Neves, é que o annel foi vendido por duzentas moedas, por signal que o primo Ignacio da Cunha as perdeu todas contra um valete, em casa do primo D. José de Castro e Alvim.
—É uma interessante historia!—disse Luiz da Cunha em abstracta meditação—E a tal brazileira onde foi enterrada?
—Na igreja, é o que disse o tal criado.
—E o filho d'essa brazileira era o tal bastardo que matou o pae!