José Bento não tinha a rusticidade nem a doçura de indole de Antonio José da Silva, o desventurado esposo de Maria Elisa, tão desventurada como elle. (Já lá estão ambos!) Se aos dezoito annos, o aprendiz de loio annunciava uma bestialidade mythologica, a natureza, modificada pelo dinheiro, enxertára n'aquella cabeça, hermeticamente fechada, uma finura maliciosa. Á primeira vista, o senhor José Bento parecia um pensador, um homem experimentado, e até um presidente d'uma companhia de viação, ou orador gosmento de associações commerciaes, que, só muito depois, tiveram Ciceros em patois.

O capitalista era amigo de Rosa Guilhermina: não podemos duvidar que o era; mas o seu modo de ser amigo era excentrico. A approximação dos extremos confundira o pequeno espirito de José Bento com o grande espirito d'algum marido fatigado de caricias, anhelante de paixões incisivas, e incapaz de se amoldar ás formulas burguezas da tranquillidade domestica. O moço fidalgo, no primeiro anno de casado, foi o que seria no quadragesimo, se Rosa Guilhermina não morresse em 1849. Nunca lhe deu mostras de aborrecido, porque tambem nunca se mostrou enthusiasmado com a posse. Teve sempre a constancia imperturbavel dos felizes alarves. Nenhuma mulher valia mais que a sua, nem a sua valia mais que as outras.

Rosa Guilhermina não esperava que sua filha succedesse na herança do marido, nem, quatro annos depois de casada, tivera ainda um filho, nem depois o teve, que protegesse a sua irmã, habituando-se a consideral-a tal.

O seu pensamento foi ageital-a para tudo o que é trabalho, dotando-a com a educação, cultivando-lhe o espirito para que a formosura não fosse a unica prenda que podésse merecer-lhe um marido com patrimonio.

Em Lisboa, José Bento não se oppôz á entrada de Assucena n'um collegio. O excellente coração da menina, arrancado ao de sua mãe, comprehendeu, em tenra idade, que a sua posição no mundo dependia de si. Docil ás mestras, que lhe adoravam a angelica humildade, o trabalho, a oração, e o estudo fizeram-na um modelo entre todas as suas companheiras. A melancolia scismadora que, aos quatorze annos, a estremava dos folguedos da sua idade, era um vaticinio de muitas lagrimas que verteria{27} sobre as flôres da mocidade, queimando n'essas o germen que nunca mais lhe desabrocharia outras.

Em 1838, Assucena tinha dezoito annos, e era ainda alumna do collegio para onde entrára aos dez. A viscondessa de Bacellar conseguira de seu marido a influencia e os meios para que ella entrasse nas commendadeiras, ordem meio monastica, meio profana, em que a vida retirada se suavisa com todas as magnificencias do luxo, e se approxima da sociedade sem conhecêl-a pelo ponto de contacto em que o coração se infecciona.

Antes de entrar nas commendadeiras, como secular, Assucena veio passar com sua mãe dous mezes.

Aos dezoito annos, estranhava o mais vulgar da sociedade. Lêra muito, e, só com sua mãe, dava ideia de não ter desaproveitado o tempo, nem enganado os mestres. Na presença de estranhos o seu acanhamento dava-lhe ares de idiota. Córava ás mais simples lisonjas á sua formosura, e folgava todas as vezes que as portas da sala se não abrissem a visitas. A presença dos hospedes privavam-na de expandir-se a sós com sua mãe que a beijava, como se faz a uma creança.

Assucena era trigueira como seu pae, e não podia chamar-se formosa, senão em verso. A formosura, que não é senão a harmonia rigorosa das fórmas, é muito rara. O que não é raro é a graça, a sympathia, o indisivel que vos encanta, sem vos dar tempo a estudar a irregularidade de um nariz, ou o defeito d'uma testa.

Engraçada e sympathica era, como nenhuma, a neta do arcediago. O sobr'olho cerrado castanho escuro, e o buço que lhe assombrava o labio superior, não fino, mas graciosamente arqueado, eram as feições mais distinctas depois dos olhos brandos e amortecidos, tão fóra do commum em rosto trigueiro. Gentil de corpo, alta como sua mãe, mais flexivel que ella, mais delicada de mão, ao longo da qual corria uma penugem que denunciava o braço delicioso, Assucena era a mulher para os sentidos e para o coração; para a voluptuosidade do amor animal, e para os arrobamentos do amor do espirito.