Luiz da Cunha e Faro não se recordava já de Assucena, quando a viu, surprendido, em casa da viscondessa.{28}

—Quem é esta mulher?—perguntou elle ao ouvido da viscondessa.

—É minha filha.

—Sua filha! a menina que eu vi, ha bons nove annos?

—A mesma. Não o apresento, porque ella é muito acanhada, e dá de si uma triste ideia, quando a forçam a fallar.

—É galante senhora! Que olhos, e que sobrancelha! Aquellas pestanas são divinas! Tem um olhar de santa! E aquelle buço? Ha de perdoar-me, senhora viscondessa; mas a filha de v. ex.ª é capaz de me fazer doudo!

—Não zombe, senhor Luiz da Cunha. A minha Assucena não é capaz de endoudecer ninguem, e principalmente v. ex.ª, que não póde endoudecer, porque a demencia dá ideia do juizo anterior a ella...

—Bem a entendo, senhora viscondessa. Quer dizer que ninguem perde o que não tem... V. ex.ª não sabe o que eu sou capaz de sentir. Até hoje tenho usado o mau coração; o bom ainda não entrou em serviço. Vinte e seis annos não é tarde para que eu me regenere. Sonhei esta noite que era virtuoso, e que dava lições de moral no largo do Rocio a quem me queria ouvir. Depois, tornei a sonhar, e fazia milagres: puz uns dentes á baroneza de Lemos, que está alli mascando com as gengivas quatro phrases de açafetida a seu marido, e fui á beira do Tejo conversar com os peixinhos que saltaram ao Terreiro do Paço, passeando em sêcco para me darem honras de Santo Antonio.

—Comece com as suas impiedades, senhor Luiz da Cunha... Olhe que eu retiro-me d'aqui... Quando ha de perder o vicio da maledicencia? Que lhe importam os dentes da baroneza de Lemos?

—Tem v. ex.ª razão. Sou um grande malvado, mas permitta que eu corrija a sua accusação. Eu não disse que me importava com os dentes da baroneza, que é cousa que ella não tem. Eu sonhei que milagrosamente lhe dava duas ordens de dentes, e lh'os déra quasi todos mollares, porque me consta que ella gosta de tortas, em que os outros se dispensam. Se isto é perversidade, minha amiga, não sei o que é virtude. Deixemos a velha, e fallemos na{29} juventude do nosso seculo. A senhora D. Assucena fica na sua companhia?