—Como seu pae!?

—Palavra de cavalheiro, o caso foi assim: debaixo da cama de meu pae vi umas cordas, que terminavam por dous ganchos. Fiz o meu raciocinio, por que já n'esse tempo estudava em logica as causas e os effeitos. A escada era o effeito d'alguma causa. Sem saber nada de mechanica, calculei a importancia social da escada, e mandei fazer uma semelhante ao meu criado do quarto. Ora aqui tem com angelica sinceridade a historia da escada de corda. Agora, pergunto eu: desarranjei eu a felicidade da filha do merceeiro? Não a tem v. ex.ª visto no theatro, ao lado d'uma especie de gallego com collarinhos em fórma de panno de falua? Esta especie de gallego é marido d'ella, tem cem contos de reis em inscripções, e não sei que no Banco Commercial, e tem a commenda da ordem de Christo. D'esse peccado da infancia, absolvo-me eu; dos outros é responsavel a sociedade.

—Não diga a sociedade. V. ex.ª tem zombado de todos os deveres. Tem reduzido seu pae a um estado de tristeza que faz dó. Tem-se divorciado de todas as pessoas de bem. Affronta a opinião publica apresentando-se nos lugares mais frequentados com uma mulher, sem pudor, uma libertina que nem ao menos o salva de se degradar com ella em publico. Se me acha ainda uma constante censora dos seus desatinos, é porque sei a historia triste do seu nascimento, sympathisei com os infortunios de sua mãe, e tomei sobre mim o inutil zêlo da honra de seu filho. Não tenho conseguido nada: nada espero conseguir. Deus sabe quantas lagrimas me tem custado este desvelo{31} quasi maternal. Por vontade do visconde, já v. ex.ª não entra n'esta casa. Reprehende-me todos os dias a familiaridade com que o recebo, e é preciso que eu o traga illudido com a esperança de que um dia será possivel a sua reforma de costumes. Senhor Luiz da Cunha, pense no futuro. Condôa-se de seu pae, que já não tem animo de ouvir pronunciar o nome d'um filho que perdeu como seu amor. Veja que póde ainda remediar o mal que fez... Aparte-se d'essa mulher. Viva com seu pae. Convença pelo seu procedimento as pessoas, que já não acreditam na possibilidade da sua emenda. Eu tambem me persuado de que v. ex.ª deve estar cansado. Creio que deve ter momentos de envergonhar-se; outros de remorso, e outros de esperança. Não cerre os ouvidos ao que a esperança lhe promette. Se o instincto do bem lhe aconselha a virtude, obedeça-lhe, e verá como a vida lhe póde ainda ser agradavel. Olhe que a virtude tem consolações incomparaveis com os prazeres momentaneos do vicio. Tenho quarenta annos. Sei o que é o mundo. Combino todos os desgostos para os saber afastar de mim, e recebo-os, quando elles são mais fortes, como desvios do errado caminho em que entrei aos quinze annos. V. ex.ª não sabe que mulher lhe falla, nem imagina o prazer que me daria se me viessem dizer que a virtude não fôra repellida d'esse coração que todo o mundo considera fechado para a luz da honra.

—Fez-me impressão, senhora viscondessa! Tem-me assim fallado tantas vezes, e nunca me feriu tanto. Eu não sei bem se o que me aconselha é possivel... Creia que vou empregar os esforços. Se o não conseguir, é porque não posso, é porque ha em mim um desgraçado condão de força sobrenatural.

A conversação, n'este sentido, foi demorada.


No dia seguinte, Liberata recebia de Luiz da Cunha um bilhete que a eximia dos compromissos de fidelidade, auctorisando-a a dispôr de tudo que lhe fôra dado. O bilhete foi recebido de manhã, e á tarde o lugar de Luiz da Cunha estava preenchido pelo primeiro oppositor á vacatura. Na proxima noite de theatro, Liberata, no camarote, ria, olhava, requebrava-se do mesmo modo, com a{32} notavel differença de que o seu companheiro era um capitão de marinha ingleza, que accumulava ás delicias de uma conquista de tal ordem os gosos d'uma solemne embriaguez de vinho.

João da Cunha acreditou na regeneração do filho, quando o viu entrar contrito em casa, tão diverso do que fôra, accusando-se por uma tristeza silenciosa, e captivando a benevolencia dos familiares com palavras brandas. Por conselho da viscondessa de Bacellar, orgulhosa do seu triumpho, João da Cunha não lhe disse uma palavra de reprehensão. O passado não veio nunca irritar o pae, nem envergonhar o filho.

Os incredulos riram da subita mudança do «mulato.» Os crentes no poder maravilhoso da conversão explicavam o phenomeno por um toque sobrenatural. Não faltou quem dissesse que a reforma do peccador fôra obra d'um egresso varatojano que operára admiraveis conversões nas casas onde almoçava e jantava. Não sabiam dizer ao certo se tambem convertêra alguem nas casas onde dormia. Eu tambem não, supposto que acho muito possivel o caso affirmativo.

O que sei de sciencia certa é que Luiz da Cunha não conhecia o dito egresso melhor que eu e o leitor. Penso que o varatojano perderia o seu latim, se tentasse engrossar com a moral franciscana os alicerces fundados pela viscondessa de Bacellar. A emenda do filho de Ricarda não tinha nada com a moral christã, pelo menos o atheo não sabia que a moral de Jesus é o codigo por que se rege a honra sobre a terra, e se conquista no ceo a eterna bem-aventurança, que não é exclusivo dos pobres de espirito.