João da Cunha passava algumas noites com seu filho em casa do visconde de Bacellar. Rosa Guilhermina revia-se na sua obra, e agradecia a Deus têl-a feito instrumento da sua vontade, para, com braços debeis, arrancar do abysmo um filho, restituindo-o ao amor de seu pae.
Assucena não se maravilhava do presente de Luiz da Cunha por que não lhe conhecêra o passado. Sabia, por meias revelações de sua mãe, que aquelle homem desmerecêra no conceito do mundo, por causa do seu mau procedimento. Os crimes, as infamias, as impudencias nem sua mãe lh'as explicava, nem ella saberia comprehendêl-as.{33} O que ella via era um mancebo melancolico, quasi sempre calado, fixando-a com frequencia, fugindo d'ella se os olhos se encontravam, trocando palavras de absoluta necessidade, e conversando com viveza, e muitas vezes, com sua mãe, como se ella só lhe merecesse attenções. Andaria aqui um incentivo de vago ciume? A manifestação inexprimivel d'um germen de sympathia? O resentimento do desdem que Luiz da Cunha aparentava por ella?
Se vos digo que sim, não digo cousa nenhuma do outro mundo, e obedeço á verdade.{34}
[IV.]
[CONTAGIO.]
Nem eu nem vós sabemos como nasce o amor. Em physiologia, que é a sciencia do homem physico, não se sabe. A psycologia tambem não diz nada a este respeito. Os romances, que são os mais amplos expositores da materia, não avançam cousa nenhuma ao que está dito desde Labão e Rachel até á neta do arcediago e o filho de Ricarda.
Dizer que o amor é a sensualidade, além de grosseira definição, é falsidade desmentida pela experiencia. Ha um amor que não rasteja nunca no raso estrado das propensões organicas.
Dizer que o amor é uma operação puramente espiritual é um devaneio de visionarios, que trazem sempre as mulheres pelas estrellas, ao mesmo tempo que ellas, gravitando materialmente para o centro do globo, comem e bebem á maneira dos mortaes, e até das divindades do cantor de Achyles.
Eu conheço homens, sem faisca de espirito, que se abrazam tocados pelo amor como o phosphoro em presença do ar. Eis-aqui um phenomeno eminentemente importante. Elle, só, sustenta em these que o amor não tem nada com o corpo nem com o espirito. Eu creio que é um fluido. É pena, porém, que eu não saiba o que é fluido para me dar aqui uns ares pedantescos, ensinando ao leitor, mais ignorante que eu, cousas que, de certo, o não privavam de continuar a comer, e a dormir.
A prova de que o amor não está na cabeça, nem no coração, é que Luiz da Cunha e Faro tinha uma cabeça{35} incapaz de calcular as consequencias d'uma acção boa ou má, e um coração desbaratado, verminoso, apodrecido para nutrir em si uma flôr das que nascem aromatisando a imagem que o amor lá insculpiu com maviosos traços.