Assucena, pelo habito da convivencia, perdêra a estranheza, e familiarisára-se com o moço tão bem aceite e tão desvelado por sua mãe. O sobresenho de seu padrasto com o filho de João da Cunha tornára-lhe a ella mais sympathico o mancebo. Recordando as asperezas do marido de sua mãe, com ella sua enteada, sempre carinhosa e humilde, achava ahi a razão da grosseira indifferença com que Luiz era recebido.

Um dia, acharam-se sósinhos, porque a viscondessa não prevenira o filho de João da Cunha da sua sahida á noite, nem prohibira, por inadvertencia talvez, a sua filha a recepção de visitas.

Os embaraços de Luiz, a sós com ella, eram improprios d'um rapaz de sala, imperturbavel fallador em todas as conjuncturas de que o homem se salva fallando muito, e prompto improvisador de palavras que não deixam nunca descahir a conversação nas trivialidades aborrecidas.

Luiz da Cunha imaginou que amava Assucena; e, só com ella, deduziu do seu acanhamento que a amava muito. Assucena já não córava na presença de Luiz da Cunha; e, só com elle, percebeu, no ardor da face, que se estava denunciando.

Era necessario dizer alguma cousa, esgotadas as primeiras palavras d'um cumprimento, cuja elasticidade se não descobriu ainda.

—Está v. ex.ª em vesperas de recolher-se ás Commendadeiras...—disse Luiz, cuidando que tinha acertado com a vereda por onde, mais facilmente, chegaria a um vasto assumpto.

—É verdade...—respondeu ella com mimo e tristeza—D'amanhã a quinze dias...

—Tão cêdo!... E está desejosa de se vêr lá, não é assim?

—Desejosa, não. Eu antes queria estar com minha mãe...

—E ella não lhe faz a vontade?