—Por vontade d'ella nunca eu sahiria de casa; mas{36} meu padrasto, não sei porque, acha que eu sou aqui de mais, e mostra-me sempre um modo aborrecido, que me incommoda, e de certo ha de incommodar minha boa mãe.

—O senhor visconde tem essa singularidade. Por calculo ou por genio, parece que toda a gente o incommoda, que todos lhe são pezados e suspeitos. Eu tenho sido bem mimoseado com os seus arremêssos, como v. ex.ª terá observado. Se encontro francas as portas d'esta casa, favor é que devo á senhora viscondessa, minha amiga desde a infancia, mais que minha mãe, porque uma mãe deixa muitas vezes perder um filho, e esta nobre senhora, este anjo que tem sobre mim uma influencia celeste, salvou-me.

—Tenho reparado que ella é muito sua amiga. Se v. ex.ª fosse meu irmão, de certo minha mãe lhe não daria mais estima...

—E porque me não faria Deus seu irmão?—atalhou Luiz com ar infantil, e meiguice de sorriso. Assucena baixou os olhos, em silencio, tambem desabrochando um ligeiro sorriso, no nacar dos labios, que pouco sobresahia á côr purpurina do pejo.

—Esta pergunta—proseguiu elle, com affectuosa tristeza—fez-lhe uma impressão muito diversa do que eu pensava! V. ex.ª córa, e a pergunta não é das que ferem a susceptibilidade do coração. Magoou-a o meu innocente desejo de ser seu irmão?

—Não me magoou...

—Pois então diga-me o que sentiu para eu poder convencer-me de que ainda lhe não disse uma só palavra indiscreta...

—Não me magoou, senhor Luiz da Cunha... já lh'o disse... O que eu senti... não foi pezar, nem alegria... Fez-me impressão essa pergunta, por que...

—Diga, não se arrependa... o seu coração ia fallar...

—Porque muitas vezes tenho perguntado a mim mesma se não seria muito bom que...