—Eu fosse seu irmão?

—É verdade...

—E córa por isso? Um desejo tão puro e tão santo diz-se, e não se esconde...{37}

—Dizer-se... nem a toda a gente. Eu disse-o a minha mãe, e ella perguntou-me cousas estranhas para mim... Se não fosse ella, isto que lhe disse com difficuldade, não teria duvida em dizêl-o ás minhas mestras do collegio, por que não sei onde está o mal d'este desejo.

—Não tem nenhum... Diga-me, senhora D. Assucena, sua mãe prohibiu-a de manifestar o bom conceito que v. ex.ª faz de mim?

—Não, senhor... Só me disse que me não habituasse a pensar no senhor Luiz da Cunha, por que o coração em se habituando a fantasias, custa-lhe muito depois a desfazer-se d'ellas quando vem a realidade. E acho que minha mãe tem razão. V. ex.ª não póde ser meu irmão.

—Mas amigo, mais que irmão, não poderei tambem?

—Amigo... sim...—Assucena córou de novo, e balbuciou estas duas palavras. Luiz da Cunha viu-a tremer d'aquella quasi imperceptivel oscillação nervosa, que denuncia o antagonismo da natureza com a arte, a força expansiva do espirito com os estorvos compressores da educação.

—Pois então... sejamos—continuou elle—sejamos o mais que podêmos ser... muito amigos, amigos por toda a vida, sim?... Por que me não responde? Receia que eu algum dia, se se esquecer de mim, a responsabilise pela promessa? Tambem não serei capaz de mortifical-a, e, se o fosse, não poderia chamar-me seu amigo. Quando aconteça que a minha amizade lhe seja pezada...

—Pezada?!