—Admirada... não!... É que...
—Não te escondas aos olhos de tua mãe, que é inutil, minha filha. Leio em todos os corações, e nunca se me escondeu um só pensamento do teu... Amas Luiz da Cunha?
—Minha mãe!...—exclamou ella, tomando-lhe carinhosamente a mão, e fazendo um aceno negativo.
—Não te assustes, Assucena. Eu não crimino essa affeição, que é muito natural. Se o tivesses conhecido, ha dous mezes, de certo o não amarias. Hoje... era quasi impossivel que o não amasses... Luiz tem alguma cousa fatal, que o fez querido a muitas mulheres, que se envergonhavam de lhe apertar a mão em publico. Hoje poucas seriam as que lhe recusassem affectos. Mas olha, Assucena... tua mãe vai fallar-te como todas as mais deviam fallar a uma filha que sáe d'um collegio aos dezoito annos. Se tivesses vivido cá fóra, não era necessario dizer-te que só ha uma posição que te convém com Luiz da Cunha. Se não fôres sua esposa, que poderás tu ser para elle?
—Sua irmã.
—Não ha irmãs pelo coração, minha filha. Quererias ser sua esposa?... Responde, Assucena... Faz de conta que fallas com a tua unica amiga. Agora não sou tua mãe,{42} visto que é de uma mãe que sua filha de ordinario se esconde. Querias ser sua esposa?
—Queria...
—Que tristes cousas vou dizer-te... Teu padrasto não te daria uma moeda de cobre como dote, e eu não posso tambem dar-t'a porque sou pobre como tu. Luiz da Cunha não tem patrimonio, não póde succeder na herança de seu pae, é pobre como ambas nós, logo que seu pae lhe morra. Vês o que é o mundo? Um casamento entre duas pessoas, habituadas a não proverem com o trabalho ás suas precisões, é uma desgraça. Tu serias muito infeliz, quando teu marido te dissesse «não temos pão.» Minha filha, eu já soube o que é não ter pão. Já desfiz um meu vestido para que tu não andasses nua. Já andei sem lenço na cabeça para que tu não tivesses fome. Já me ajoelhei comtigo nos braços, pedindo a Deus que nos levasse ambas, antes que tivessemos de morrer de fome entre quatro paredes. A amiga que nos valeu a ambas, é hoje uma desgraçada, não de fortuna, porque eu privo-me de muito para que ella tenha tudo. É desgraçada... pobre Maria Elisa... porque se deixou arrastar pelos cabellos onde a leva o mau anjo das suas paixões... Coitadinha! no que deu aquella mulher!...
—Não chore assim, minha mãe...
—Deixa-me chorar... eu preciso de chorar alguma vez na tua presença... São mais dolorosas as lagrimas, sem testemunhas. Preciso d'uma confidente, e, se o não és tu, quem o será? Nos salões é preciso rir sempre. Com meu marido, é necessario ser o que elle é... Comtigo posso ser o que sou... Minha filha, tua mãe vai pedir-te um favor...