A causa da falta extraordinaria, e sensivel para a viscondessa, era o incommodo de João da Cunha, que periodicamente soffria accessos de sangue á cabeça, ameaços de congestão cerebral, que o debilitam pelas repetidas sangrias, seu allivio unico. Luiz passava os dias e as noites, ao pé de seu pae, pela primeira vez. Em tempos de libertinagem, as doenças do pae eram indifferentes ao filho, e até a formalidade d'um cumprimento lhe era pezada.

—Que differença!—dizia D. Rosa a sua filha—Quem diria que Luiz da Cunha passaria as noites ao pé de seu pae! Onde estava um nobre coração! Á vista d'isto, ninguem deve perder a esperança de salvar um homem abandonado de todos! A sociedade é a que atira o desgraçado á miseria...

—Á miseria!—atalhou Assucena.

—Sim, minha filha. O desprêso com que são repellidos os infelizes, que não podem ser bons sem os conselhos d'um bom amigo, é muitas vezes a causa de se perderem de todo. O mau homem cuida que se vinga redobrando em malvadez. Deixam-no sósinho, e elle precisa de viver em sociedade. Procura a unica que o recebe, a dos abandonados como elle. Ahi encontra irmãos mais perdidos que elle, e acha sempre um amigo. Dizia teu pae, minha filha, que o ultimo amigo do criminoso era o carrasco... Não entendes esta linguagem, Assucena...{41} Oxalá que nunca recordes palavras de tua mãe, ditas como um desafogo a quem lh'as não entende... Foi talvez com ellas que eu salvei Luiz da Cunha... Servem só para desgraçados... e tu, filha, és feliz, és innocente, és um anjo.

—Elle é ainda desgraçado?

—Póde ser feliz...

—Eu queria que elle o fosse; mas é tão triste... Elle era assim d'antes?

—Não. Escarnecia de tudo, convertia tudo em galhofa respondia ás minhas admoestações com agradecimentos ironicos, e contava-me os seus desatinos como quem conta acções meritorias. O primeiro dia em que lhe ouvi queixar-se da sua má estrella, foi no dia em que te viu...

—Em que me viu!?...—atalhou Assucena, sem poder conter as palavras, que vinham do coração sobresaltado.

—Porque me fazes esse reparo tão admirada?!