«Em quanto a Maria Elisa, meu caro visconde, sinto dizer-lhe que está uma perdida. Ultimamente adquiriu um amante que lhe consome a generosa mesada que a senhora viscondessa lhe dá. Acho prodigalidade despender cincoenta mil reis cada mez, para sustentar dous viciosos. Ella tafula, como se tivesse doze contos de reis de renda. Os cinco mil cruzados, que sua senhora lhe mandou ha um anno, dissipou-os em menos de tres mezes. Não sei, ainda assim, como ella póde fazer tanto com cincoenta mil reis mensaes. Disseram-me hoje que ella recebia outros cincoenta; não posso colligir d'onde venham. Os meus respeitos &c. &c.» {45}

Rosa Guilhermina estava pallida e fria. As ultimas linhas d'esta carta eram a denuncia do emprego que ella dava ás suas economias. O filho da senhora Anna Canastreira, lida a carta, passeou na sala, dobrando-a, soprando, limpando os oculos, e batendo com a caixa do rapé na palma da mão esquerda.

—Que dizes tu a isto, Rosa?

—Que hei de eu dizer, José! que Maria Elisa deve muito a Deus, se a levar d'este mundo.

—Mas, em quanto Deus a não leva, é preciso pôr cobro a isto. Sabes a maneira como?

—Diz, meu amigo.

—Levantar-lhe a cesta. Os beneficios que lhe deves estão pagos com usura. Em quanto esteve comnosco foi tratada como rainha. Deu-lhe o diabo da asneira na cabeça, e fez tropellias que me obrigaram a sahir do Porto. Sahiu da companhia do S*** C***, déste-lhe uma casa mobilada de tudo, e uma mesada que sustentava uma familia. Vendeu casa e moveis, e andou de amante em amante, até que lhe déste cinco mil cruzados para ella cemprar uma quinta em Santo Thyrso. Qual quinta nem qual carapuça! Gastou os cinco mil cruzados, gasta os cincoenta mil reis, e outros cincoenta, que naturalmente são remettidos por ti. Não te ralho Rosa: o mal feito não tem remedio; mas reprovo d'hoje em diante o desfalque da nossa casa, para trazer no galarim uma mulher sem vergonha, uma libertina de quarenta annos. Se lhe queres continuar a mesada, manda-a entrar n'um convento, onde a não conheçam, e sustenta-a lá. Assim ha de dizer-se que o meu dinheiro serve d'alimentar mulheres perdidas, e vadias. Não estou por isso.

—Eu pensarei no que se ha de fazer: entretanto peço-te que lhe não suspendas a mesada. Faz isto que te supplíca tua mulher.

—Farei; mas tu não te lembras de fazer economias para essa rapariga que não tem nada de seu?

—Qual rapariga? minha filha?