—Não terá; mas pelo sim, pelo não, sempre te vou dizendo que para tal casamento não sáe um pataco da minha gaveta. Tomára eu o que por lá anda por casa do João da Cunha! Cara me tem custado a amizade do tal fidalgo! Já não tem bens livres que cheguem para o pagamento de dez mil e tantos cruzados que me deve, afóra a fiança que eu lhe prestei para um titulo de divida que o extravagante do filho assignou de um conto de reis. Tem juizo, Rosa. Não te deixes enganar com apparencias. Alli onde o vês com ares de convertido, tudo aquillo é hypocrisia. Agora vou entendendo a razão de tal mudança. Queria um dote, e uma mulher. O dote gastava-o com a tal dissoluta que levava ao theatro, ou com outra que tal; e a mulher, qualquer dia vinha, com dous ponta-pés, pedir-te que lhe désses um bocado de pão. Ás vezes pareces tão esperta... e cáes em cada alhada, que nem uma cosinheira! Querem vêr que a rapariga está namorada com o senhor Luizinho?!

—Basta, José... Não fallemos mais n'este assumpto. Fiz-te uma pergunta muito simples, e respondeste mais do que era necessario. Ficamos entendidos. Posso contar com a subsistencia de Assucena no convento?

—Paguei hoje seiscentos mil reis de entrada, e estabeleci-lhe seis moedas por mez, e uma creada de cozinha, e{47} outra do quarto. Se é necessario mais alguma cousa, é pedir por bôca, em quanto está aberto o cofre.

—Não é preciso mais nada, meu amigo.

—Poucos padrastos fazem outro tanto...

—Tens razão, José.

—E quando lhe appareça um digno marido, não terei duvida em lhe dar um dote; mas não para Luizes da Cunha, e outros que taes. Ficas zangada?

—Porque? Fico-te de todo o coração agradecida. Tudo que fizeres em bem de minha filha é uma esmola de caridade.

O visconde desceu ao escriptorio a descontar letras do governo, e Rosa Guilhermina fechou-se no seu quarto com a filha.

Antes de annunciar-lhe o que se passára, tinha dito com as lagrimas o mais que poderia dizer-se.