—E que não se perca em Coimbra como eu me perdi...—continuou{60} elle, surdo ás interrupções incessantes de Luiz—Foi lá que me atirei a este fôsso, d'onde não ha sahida, nem pela porta da contrição. Não se segue do meu crime a expiação em meu filho. Se causei a morte de Ricarda, não fui eu que a matei; foi seu marido. Se se reconciliaram na presença de Deus, é bem que eu pague o sangue com o sangue: mas meu filho, esse não...
Luiz da Cunha não decifrava das vagas exclamações de seu pae a resposta do visconde. Retirou-se para Lisboa, e entrou em uma casa da rua do Principe. Subiu a um terceiro andar, e recebeu nos braços a inquieta Assucena, que chorava e tremia.
—Porque choras?
—Estava sósinha, e muito triste, Luiz...
—A tua criada não te fez companhia?
—Ninguem m'a póde fazer... Ou tu, ou ninguem... Agora, não choro, nem tremo... Que resposta deu minha mãe?
—Não sei: meu pae está effectivamente doudo. Não comprehendi nada do que elle disse; mas, a acreditar o delirio em que o encontrei, o visconde não lhe respondeu do modo que suppúnhamos.
—E então?
—E então, minha filha, és o que eras para mim. Bem sabes que te não amo por calculo, nem te adoro menos se os meus planos falharem.
—Eu bem o sabia, Luiz! O dinheiro não faz a tua felicidade nem a minha...—disse ella abraçando-o com o acanhamento do pudor.