—De certo não, Assucena. O caminho que temos a seguir é sempre o mesmo. Rica ou pobre serás minha esposa.
O amor não se finge. A tibieza das phrases triviaes de Luiz da Cunha diz-nos que o arrependimento veio, mais cêdo do que devia esperar-se, manifestar um enthusiasmo sobre posse. Não se acredita, sem ter experimentado, a subita mudança que transforma o homem, quando a posse absoluta da mulher, que se lhe dá, é logo misturada de desgostos imprevistos. Um rapto, de que se espera um dote, é um pêso aborrecido quando a esperança, fugindo, apenas deixa nos braços do raptor uma mulher{61} sem illusão, nem prestigio. E, peor ainda, quando o amor é debil, o coração extenuado não aceita os sacrificios grandes, que, raras vezes, acrisolam o amor de fantasia, como era aquelle de Luiz da Cunha.
Querem vêl-o tal qual era nas primeiras vinte e quatro horas de convivencia com a filha de Rosa Guilhermina?
Chegou a conceber o pensamento de fazêl-a entrar no convento em quanto o escandalo não era publico! Por vergonha, lhe não fez a ella a proposta reparadora da sua virtude! A virtude, portanto, na opinião d'este homem era um attributo bem facil n'uma mulher!
Passaram-se alguns dias, sem Assucena desconfiar da frieza do seu amante. A nudez, e os gestos de impaciencia que elle, ao quarto dia, não podia esconder, traduziu-os ella como inquietação pela perigosa enfermidade de João da Cunha.
Luiz sahia de noite, a visitar seu pae. Não o encontrava nunca nos intervallos lucidos, e sabia que os accessos eram cada vez mais duradouros.
Resolveu, sem consultar Assucena, escrever á viscondessa. A carta foi ter ás mãos do visconde. O visconde devolveu-lh'a aberta, com estas linhas:
«Em minha casa não ha quem responda ás infames cartas do senhor Luiz da Cunha. Se quer dinheiro, trabalhe. Sahiu-lhe errado o seu calculo. Creia que me não enganou a mim, que tenho experiencia para conhecer os patifes. O que lhe vale ao senhor é essa mulher não ser minha filha... De hoje em diante, os seus portadores a esta casa serão corridos a chicote.»
Estas linhas provocaram toda a irascibilidade de Luiz da Cunha. A ameaça era feita em termos muito insultantes, e o brio não tinha ainda expirado no filho de João da Cunha. A carta recebêra-a elle em casa de seu pae. N'essa noite não veio á rua do Principe, e mandou um bilhete desculpando-se com a gravidade da doença de seu pae. Assucena viu a sua desgraça a um raio de razão n'esse bilhete. Eram apenas decorridos vinte dias, depois da sua fuga! Chorou uma noite inteira, e escreveu a sua mãe uma longa carta, que rasgou.{62}
Luiz da Cunha apeou no pateo dos Paulistas, esperando o visconde de Bacellar que era certo ás onze horas de passagem para o Banco, ou para a praça commercial.