Vendo-o, parou diante da sua carruagem. O boleeiro sustou os cavallos, e o visconde, sem auxilio de criado, saltou da portinhola com resolução.
O filho de João da Cunha não entreteve o palavriado preliminar n'estes conflictos. A sua arma era um chicote, e a do filho da Anna Canastreira eram os braços musculosos. Travou-se a luta. Cada murro bem puxado do visconde, Luiz recambiava-lh'o na face em chicotada, que se repetia sobre o vergão da primeira. Os criados do visconde soccorreriam o amo, se não encontrassem de frente os criados de Luiz da Cunha. Eram dous os grupos de gladiadores; e o povo, sem ser romano, parecia, pela sua inercia, gosar o espectaculo curioso entre os dous athletas.
O capitalista fôra ferido na face pelo martello do chicote. Os cabos de policia, e a guarda do correio, supposto que tarde, empregaram a força. O capitalista teve logo ahi um fiador, que o salvou de entrar entre bayonetas. Luiz da Cunha do corpo da guarda foi á administração, e d'ahi ao Limoeiro, d'onde sahiu afiançado quarenta e oito horas depois. Tudo isto foi ridiculo a não poder ser mais! Cada qual explicava o caso com uma anecdota. A fuga de Assucena era acontecimento que não passára d'uma roda muito restricta; e, portanto, era livre a invenção aos interpretes do pugilato.
Passára-se uma noite e um dia de solidão para Assucena. Como seriam entretidas aquellas quarenta e oito horas! Que presentimentos, que receios, que saudades, que reprehensões da consciencia atormentariam a pobre menina! Fechada no seu quarto, rejeitára o alimento que a indifferente criada lhe offerecia. A sua dôr tinha frenesis, que a extenuavam. Todo o seu esforço em resignar-se era baldado, quando a esperança lhe mentia nos passos que subiam a escada e paravam no primeiro ou no segundo andar.
Depois de quarenta e oito horas, sem noticia de Luiz, o desespêro fortaleceu-a resolvendo-a a procural-o em casa de seu pae.
Á noite, sahiu com a criada, perguntando de rua em{63} rua o caminho do Campo Grande. Á porta de João da Cunha estava um criado. Pediu-lhe que chamasse o senhor Luiz da Cunha; responderam-lhe que não estava lá, e que o mais certo lugar onde o encontraria era no Limoeiro.
—Prêso!—exclamou Assucena.
—Sim, minha menina, prêso pela vigesima vez por causa das suas patacoadas. Não chore, creaturinha, que o senhor Luiz ha de sahir brevemente.
—E porque o prenderam?—perguntou a criada.
—Porque deu umas chicotadas no visconde de Bacellar, assim como quem não quer a cousa.