—E é por isso que querias casar com a filha do visconde?

—Adivinhaste; mas o visconde não lhe dá nada, e eu nada tenho que lhe dar como amante, e muito menos como mulher.

—Queres tu uma cousa? Não digas a ninguem que és meu amante, e não se te dê que o conselheiro o seja. Queres?

—Não; porque terias de me sustentar. A mim o que me convém é sahir já já de Portugal.

—Porque?

—Quero vêr se a pequena se recolhe a casa do padrasto, e preciso na Africa ou no Brazil mudar de nome, e arranjar uma fortuna.

—És tolo! Qual Africa nem qual Brazil! A pequena, em tu lhe dizendo que nada feito, toma o rumo de casa, e a mãe ha de recebêl-a, se a não quizer vêr onde vai parar muita gente que tambem foi honrada. Tu mettes-te em casa de teu pae, de dia, e, passada a meia noite, vens para a tua Liberata. Em quanto eu tiver um annel, tens tu um casaco, em se acabando, fizemos trinta annos á justa. Has de crêr que sou tua amiga apesar das tuas ingratidões? Deu-me para aqui! Sympathisei comtigo, e se fosse rainha fazia-te rei. Ora aqui está. Nada de tristezas. Vamos cear, que já ouvi a campainha tres vezes. Inda cá tenho os criados que me déste, e não são capazes{71} de dar um pio. Quando souberam que tu cá vinhas hoje, até dançaram a gôta... Tu ficas sendo de hoje em diante o dono d'esta casa, e o conselheiro é o nosso mordomo, sim?

Luiz da Cunha enlaçou o braço pelo de Liberata, que lhe cingia a cintura, e entrou na sala de jantar, onde scintillavam os crystaes variegados, pequena parte d'uma soberba copa. A cêa era servida por um criado, de gravata e collête branco. Luiz respondeu com um abraço familiar á cortezia affectuosa do seu antigo escudeiro de quarto.

O et cetera é a palavra latina que eu conheço mais util nos usos sociaes. Com um et cetera, ou dous, fica historiada esta noite; mas ainda um terceiro de certo não diria que Luiz da Cunha no dia seguinte, quando se approximava a matinal visita do conselheiro, depois de almoço, recolheu-se ao quarto do criado, onde escreveu a seguinte carta:

«Assucena.