«Não te verei mais. Os obstaculos ao nosso casamento são invenciveis. Uma desordem, que tive com teu padrasto, obriga-me a sahir de Portugal. Escreve a tua mãe, e diz-lhe onde moras para que ella te procure, e te receba em sua casa. Se eu um dia tiver colhido algum bom resultado dos meus projectos, tornarei a Portugal, e serás então minha esposa, assim como eu o serei teu, toda a vida, pelo coração. Demoro-me escondido em Lisboa alguns dias; mas, por evitar mais amarguras, antes quero não tornar a vêr-te. Lembra-te que eu sou muito infeliz para te resignares na tua infelicidade.

«LUIZ DA CUNHA.»

O portador voltou, dizendo que a carta fôra recebida por um velho, que tinha geitos de padre.

—Quem será este padre?!—dizia Luiz da Cunha a Liberata.{72}

[VIII.]

[PROVIDENCIA OU ACASO?]

Assucena contára com pueril ingenuidade a sua vida ao conego Bernabé Trigoso, e a sua irmã. Não lhe occultou o seu nascimento, nem as menores circumstancias da sua fuga. Disse quem era o seu amante, e reparou que o conego, ao ouvir tal nome, exclamára de modo que não queria ser ouvido:

—Santo Deus!

A senhora D. Perpetua, virtuosa sem momos de beata, pedia á sua predilecta Senhora das Dôres que permittisse a reparação da falta de Assucena. O conego, crente no remedio do ceo, mas intelligente bastante para se não abandonar inerte ás operações invisiveis da Providencia, prometteu á sua hospeda empregar todos os meios possiveis para destruir os obstaculos ao seu casamento.

—Mas—accrescentou elle—eu não creio que o senhor Luiz da Cunha recompense o amor que a menina lhe tem.