Ainda assim, mudou de proposito, quando ouviu tres pancadas na mesma porta onde entrára Luiz da Cunha. Cobriu-se com a esquina da travessa Nova, e esperou. Ao segundo toque, foi aberta a porta. Um vulto entrára: dous foram postar-se na travessa de Santa Thereza. Vinte minutos depois, vira sahir um vulto, menos volumoso do que entrara. Viu correrem sobre elle os outros dous, ouviu gritos de soccorro, e divisou um corpo cambaleando até cahir. Duas patrulhas correram ao local do grito. Madureira confiou nas garantias da guarda civica, e aventurou-se a tirar a ultima conclusão dos seus principios. Foi, e viu, nos braços dos soldados, Luiz da Cunha com as mãos tintas de sangue, que lhe transsudava do collête branco, e da gravata. Eram duas punhaladas, pelo menos: uma no peito, e outra no pescoço.

—O senhor viu como isto foi?—perguntou um soldado ao padre.

—Não senhor, eu vinha na travessa Nova, quando ouvi gritar.

—Conhece este homem?

—Nada, não conheço.

—Quem é o senhor?—perguntaram a Luiz da Cunha, que sahira do torpor em que o deixára o abalo.

—Moro no Campo Grande, no palacete de João da Cunha.

—Olha que firma!—murmurou um soldado para o seu companheiro de patrulha—Bem me parecia a mim que o conhecia... Este foi o que jogou o murro com o visconde de Bacellar, nos Paulistas! D'esta vez parece que topou com a fôrma do seu pé...

Luiz da Cunha foi conduzido por dous gallegos do chafariz, apenados por cabos de policia, em uma cadeira, sobre duas trancas de carreto, a casa de seu pae.

Madureira, apenas luziu a fresta do seu quarto, na rua das Gavias, correu á rua do Principe, onde expôz na melhor ordem as aventuras da noite; só não soube dizer que o vulto, que o accommettêra, e desempalára o furão da casa de Liberata, fôra o conselheiro Costa e Almeida,{86} que não era tão excellente creatura como a sua amante o imaginava.