Deixemos o padre Madureira com Bernabé Trigoso, e vamos espreitar mais dentro o que elle não viu, nem saberá contar ao espantado conego, e á espavorida Perpetua.

O conselheiro fôra avisado por cartas da infidelidade de Liberata. Á primeira não deu credito. Á segunda deu algum, porque lhe marcava a hora da entrada. Viu com os seus proprios olhos, porque a sua duvida era tal, e tamanha como o pleonasmo da phrase. Depois que o viu entrar, quiz bater á porta; mas faltou-lhe o animo na conjectura de ter de encontrar-se com o rival. Na segunda noite, sem inspirar desconfianças a Liberata, entrou armado, fortalecido pelo ciume. Procurou-o em todos os cantos, com finura e resolução, e não o viu. No dia seguinte, recebe a terceira anonyma: dizem-lhe que o concorrente sahia quando elle entrava. Preparou-se. Chamou dous criados, e deu-lhe instrucções, que elles desempenharam d'um modo que não deixou nada a desejar, porque o julgaram morto, e as instrucções eram assim pontualmente executadas.

Liberata ouvira os gritos de soccorro, quando o conselheiro parecia querer distrahil-a vibrando o teclado do piano. O criado, por um aceno, significou-lhe a catastrophe. A enfurecida amante de Luiz veio á janella, e perguntou a um grupo de soldados e cabos de policia o que acontecêra. Responderam-lhe que fôra alli apunhalado um rapaz de boa familia do Campo Grande. Liberata voltou para dentro, entrou no seu quarto, correu desfigurada com um punhal á sala, onde passeava o conselheiro, e desceu-lhe sobre o peito uma punhalada, que elle amparou no braço.

—Já fóra de minha casa—bradou ella—quando não grito aqui-d'el-rei contra um ladrão, contra um assassino!

—Cale-se, que eu retiro-me.

—Já sû assassino! ámanhã hei de publicar o seu nome nos jornaes, como matador de Luiz da Cunha, se elle morrer. Fóra de minha casa, patife!

O official maior cozeu-se com o corrimão, mais receoso da lingua que do punhal.

Liberata mandou montar a sege. Era um galopar vertiginoso{87} para o Campo Grande! Encontrou defronte do palacio do conde das Galveas a cadeira, que conduzia Luiz. Apeou. Chamou-o, beijou-o com frenesi; fêl-o entrar na sua sege; mandou adiante o criado de taboa chamar um medico; deu ordem para que a sege volvesse vagarosamente, e entrou em sua casa com o filho de Ricarda desfallecido nos braços, pela perda de sangue, que ella em vão quizera estancar com os lenços, e até com as meias de sêda branca, servindo-se das ligas, e fitas dos sapatos como compressas.

O medico declarou que as feridas não eram irremediavelmente mortaes. Luiz da Cunha foi curado com extremo desvelo. Um mez depois dava um passeio de sege, ao escurecer, a par da sua estremecida amiga.

As indagações da policia aclararam todo este mysterio. O conselheiro não foi poupado á irrisão publica, e a dedicação de Liberata era celebrada como um heroismo incompativel com tal mulher. Alguns litteratos promettiam um drama em tres actos sobre bases tão dramaticas. Outros escreviam poesias em versos grandes intercalados de pequeno, sem que se promettia a rehabilitação de todas as Liberatas. E com isto, os pobres rapazes, se fizeram algum mal, foi a elles, porque, desde esse dia, até no Bairro Alto procuraram victimas a salvar do abysmo, e sahiram de lá espancados por algum marujo, que entendia melhor de fado e vinho, que de regeneração e amor, e ellas tambem, pelos modos.