—É porque te amo, Liberata, e não sei como hei de indemnisar-te.

—Não me deves nada: estás recebendo o juro d'uma{95} divida. Sem ti, meu Luiz, não era eu nada. Foste tu que me fizeste conhecida dando-me em espectaculo de que eu lucrei muito, quando dizem que o escandalo faz perder. O americano apaixonou-se por mim no theatro, vendo-me comtigo. O capitão de fragata foi um irritante que fez dar saltos o americano. O americano fez dar saltos o conselheiro. Hoje és tu um irritante de muitos; mas, em quanto podér sustentar fidelidade, sou tua captiva. Quando não podér, digo-te adeus por algum tempo.

—E despedes-me?

—Que remedio! mas por ora não. Vamos vivendo sem cuidados, em quanto se não offerece uma conveniencia, que valha a pena da nossa separação por algumas horas... Deixar-te eu, isso é que nunca. É cá um capricho de mulher perdida, que se parece muito com os caprichos das mulheres aproveitadas...

Eis-aqui a posição social de Luiz da Cunha, dous mezes depois que fôra ferido. Comia e vestia das economias de Liberata. Indemnisava-a com uma permanente convivencia, e, muito instado, ao anoitecer, dava sósinho um curto passeio.

Este viver monotono, e impresistente para a sua inconstancia natural, fatigou-o. Liberata conheceu o cansaço do amante, e não se affligiu, porque tambem ella se sentia marasmada n'uma continuada repetição das mesmas sensações, cada vez mais arrefecidas.

E, depois, o filho de Ricarda habituára-se a julgar commum de dous os cabedaes de Liberata. Tomava das gavetas dinheiro, que não trazia de fóra, e, se algumas vezes trazia triplicada a quantia que levára, não lhe dava canceira a restituição dos fundos.

Luiz da Cunha jogava n'um terceiro andar na rua do Ouro, onde se congregavam em fraternal espoliação alguns negociantes, alguns bachareis vadios, poucos litteratos, e bastantes empregados publicos. Sempre infeliz, o parasita de Liberata recolhia muitas vezes colerico da perda, e encontrava a sua amante na cama, com a chave corrida por dentro.

Luiz da Cunha, n'essas occasiões, que foram muitas, sentia assaltos da consciencia, discutia com elles, e ficava sempre vencido, reputando-se infame. As maximas, que{96} forjára na cama, durante o periodo da cura, não lhe serviam auxilio nenhum n'esses combates com o senso-intimo. A devassa philosophia não lhe desviára, com lubricos esgares, os olhos despertos da alma do ponto negro, que a consciencia lhe mostrava, lá em baixo, no fundo da voragem.

Um dia, depois de oito mezes de hospedagem, Luiz da Cunha teve com Liberata esta importante prática: