—Meu caro Luiz, chegou a occasião de darmos um saudoso abraço por algum tempo. Ha oito mezes que temos gasto como se tivessemos descoberto a pedra philosophal. Feitos os meus calculos, não podemos assim viver mais quatro mezes, sem que eu venda a cama. Cavallos e sege já lá vão; as minhas pulseiras, e o meu collar estão empenhados. Tu tens jogado mais d'um conto de reis, e sei que deves seis ou sete a um tal Aboim, que vai ser meu amante. Mudemos de rumo, que o barco vai a pique. Já te disse que não sympathiso nada com a honrada miseria, e a miseria a que nos vamos reduzindo é d'aquellas que tem o inferno da desesperação, embora digam as novellas que uma tranquillidade de consciencia, mantida pelo trabalho honesto, é a suprema ventura. Será; mas eu deixo essa ventura á mulher do meu sapateiro; e penso que tu tambem...

—Isso quer dizer que...

—Adivinhaste, Luizinho. Não precisas acabar a phrase: tens uma penetrante intelligencia. Não achas que tenho razão?

—Tens...

—Agora o que deves fazer é as pazes com teu pae, e vê se elle te faz seu herdeiro, ou se o visconde dá á enteada um bom dote. Logo que eu tenha restaurado a minha fortuna, tanto te recebo pobre como rico; ponto é que eu possa prescindir do Aboim, como prescindi do conselheiro.

—Vejo que és sempre a mesma mulher!

—Não te comprehendo bem.

—És a Liberata que eu encontrei na rua do Ouro.

—Justamente a mesma.

—Uma certa Liberata, que appareceu no theatro com um novo amante, na mesma noite do dia em que a deixei.{97}