A compadecida censura do padre tinha um ecco no coração de Assucena. Os infortunios de Luiz da Cunha não podiam ser-lhe estranhos. Se, n'um momento de dolorosa exaltação, ella dissera que queria vingar-se, dez mezes tinham decorrido depois, e antes d'esse momento estavam alguns mezes de apaixonado delirio, de cega idolatria ao homem, que tão cruel lhe fôra. A religião, sucessora de todas as affeições de Assucena, operára em sua alma a maravilha do perdão para todas as injurias, d'onde quer que ellas viessem. Pensando na maldade de Luiz, e não podendo explical-a, attribuiu-a ao destino, interpretando assim do peor modo o livre arbitrio do homem remido pelos sacrificios de Jesus, e salvo pelas suas obras meritorias de recompensa, ou condemnado pelas infracções da lei divina. Esta anomalia intellectual é a enfermidade de muitas pessoas dedicadas, sem critica, ás cousas da fé, e descahidas, quando mais intentam levantar-se, nas grosseiras crenças do fatalismo, do destino, do «estava escripto» de Mafoma, e do quó Deus impulerit de Cesar.
Assucena viera a convencer-se do que tem de ser a respeito de Luiz da Cunha. Entendeu que uma vontade, superior á d'elle, o obrigava a ser mau para os outros, que serviam de instrumento providencial á sua desgraça. A Providencia era assim insultada pela innocente menina, e não admira que ella incorresse na heresia, que passa em Roma com os fóros de san doutrina.
D'esta conjectura ao perdão era logica a passagem.—Perdoar-lhe para amal-o—dizia ella na sua consciencia—isso nunca, em quanto a mão de Deus me não desamparar, mas perdoar-lhe para que a justiça divina se{101} aplaque; oxalá que a sua felicidade dependesse do meu perdão, que tão recommendado me foi pelos dous anjos que fallam do ceo...
Assucena acreditava no seu consorcio espiritual com as almas do conego, e de sua irmã. Está n'essa crença a explicação da fervente supplica que ella, em extasis, fizera, depois que o padre Madureira narrára compungido as desventuras de Luiz. Não sei se as almas lhe responderam; mas, de todo o meu coração, creio que sim. Não se explicam certos actos que divinisam a creatura, se a não considerarmos tocada d'um magnetismo que mana de fonte sobrenatural. Não posso conceber o heroismo do perdão de Assucena, sem concebêl-a sujeita á vontade d'um impulso divino, d'um condão de predestinada, d'uma qualquer força, que não seja esta, que imprime o movimento nas acções triviaes de cada homem, incapaz de produzir o que outro homem não produz.
Assucena devia recear-se de abrir sua alma ao padre Madureira. Devia; mas a coragem é o que espanta! Pede-lhe que soccorra Luiz da Cunha, visto que não tem pae, nem amigos. Offerece-lhe, para que o prêso seja solto, o dinheiro que quizer, com tanto que Luiz não saiba nem por sombras que é ella a que o salva. Isto, que pede, pede-o, chorando; e padre Madureira, tocado pelo enthusiasmo da caridade, não tem uma só palavra contra. Aceita o melindroso encargo, e promette esgotar todos os recursos, supposto se tema de não vencer os inimigos poderosos de Luiz.{102}
[XI.]
[SÃO MUITOS OS LAZAROS; MAS UM SÓ O CHRISTO.]
O visconde de Bacellar, com quanto não fosse parte contra Luiz da Cunha, seu aggressor, aguilhoava indirectamente o ministerio publico. Difficultava-se, portanto, a soltura por fiança, que a lei não concedia na reincidencia do delicto, aggravado agora, por deserção e roubo, e entregue por isso á summaria jurisprudencia militar.
Padre Madureira, aconselhado, descoroçoou diante dos obstaculos; mas Assucena, como se tivesse um experimentado uso da omnipotencia do dinheiro, instou o padre, authorisando-o de novo para todas as despezas.
O mestre de recruta, seguro de que não morria da cutilada, transigiu por dinheiro com o seu discipulo rebelde, e declinou a accusação. O conselho militar, movido á piedade por não sei que figuras rhetoricas do agente de Assucena, despresou a virulenta accusação do auditor, acalorado por suggestões do visconde. O juiz criminal, um pouco indeciso, como o burro de Buridan, entre o codigo e a peita não mesquinha, negociada pelo escrivão do processo, absolveu o réo, dando assim um testemunho da sua moralissima independencia de viscondes.