O cabo de cavallaria foi militarmente condemnado a dous mezes de prisão, e baixa de posto a soldado raso. O seu plano de suicidio não vingou, á vista da limitada pena. Soubera que um braço poderoso o protegia, aluindo os obstaculos com alavanca de ouro. Conjecturou d'onde tal protecção poderia vir, e julgou-se ainda debaixo{103} da tutelar influencia de Liberata, que não podia deixar de ser o seu anjo valedor, em todas as crises.

Desvaneceu-se-lhe esta grata certeza, quando o carcereiro o chamou á sua sala, deixando-o só com um homem desconhecido, trajando batina, e sapato de fivela.

—O senhor Luiz da Cunha—disse Madureira—deve ter conhecido que alguem o protege. Ignora quem é, e eu, supposto que tenha sido o solicitador da sua soltura, não venho aqui dizer-lhe quem lhe evitou um degredo.

—Pois eu não hei de saber a quem devo tantos favores?!

—A pessoa, que lh'os faz, prescinde da sua gratidão, e deseja não ser conhecida. Receba os beneficios, e não queira vêr a mão invisivel que o protege, porque a não póde vêr. Quem quer que é, não limitou ainda a sua caridade com o senhor Luiz da Cunha. Ha tenções de lhe dar os meios para que o senhor deixe Portugal, e vá no Brazil, ou na Africa, tirar algum interesse do capital que se lhe dér aqui. Faz-lhe conta aceitar este beneficio?

—Aceito, cheio de reconhecimento. É o maior favor que me póde fazer esse Deus, que me ampara, seja quem fôr. Mas sou soldado, e preciso que me dêem baixa.

—Ha de têl-a. O senhor tem dividas?

—Tenho dividas; mas essas não me inquietam, porque os meus credores são ladrões civilizados. É dinheiro de jogo, que eu não pagaria ainda que podésse.

—Mas alguem quer que o filho do fallecido João da Cunha se retire honrado de Portugal, apparentemente ao menos.

—Isso meu caro senhor, é obra difficultosa. Eu não sei bem o que devo; mas, por um calculo approximado, não pago essas ladroeiras que me fizeram com oito contos de reis; e, se eu tivesse hoje quem me désse quatro, em cinco ou seis annos prometto que os faria chegar a cem.