—É admiravel que o senhor Cunha com essa finura commercial se arruinasse até ao extremo de ser soldado para não morrer de fome...

—Meu amigo, na adversidade é que se fazem os grandes calculos, e que se traçam os grandes planos.

—Pelo que vejo, os calculos e os planos de fazer que quatro contos produzam cem em cinco ou seis annos, só{104} se meditam quando o coração está de todo em putrefacção, e as algibeiras vazias...

—Parece-me que tem razão, senhor padre... Como se chama, meu caro senhor?

—Não me convém que o senhor me conheça, nem o meu nome lhe é uma cousa de importancia. Queira continuar. Disse que eu tinha razão...

—Sim, tem razão; mas não me lembra a que respeito eu disse que o senhor tinha razão...

—Tambem não importa. Sabe o que eu admiro, senhor Cunha? É a sua presença d'espirito!

—Nunca me faltou. Sou um verdadeiro philosopho, e peço-lhe acredite que nunca estudei philosophia. Ha tempos, quando me fizeram a grosseria de me trazer aqui, sem o meu consentimento, resolvi suicidar-me, em certo dia e a certa hora...

—Que foi o que o conteve?

—Foi essa pessoa que me protege, alliviando-me da condemnação, que me promettiam os meus juizes, sendo um d'elles um homem, que foi criado de meu pae, e é hoje do supremo conselho militar... Isto não vem nada ao caso... O facto é que me não suicidei, como o senhor vê, e desde então entrei nos grandes calculos, bem longe de sonhar que alguem me queria fazer rico, dando-me um capital, que eu levarei no Brazil a uma cifra fabulosa.