—Já lhe disse que não denunciava o seu bemfeitor.

Seu, ou sua?

—Não tem resposta o reparo. O senhor Cunha deve ter a polidez d'um cavalheiro não me interrogando mais sobre tal assumpto.

—Pois bem: eu respeito o mysterio: nem mais uma palavra a tal respeito.

—Ora, diga-me, senhor, não tem pena de si? A sua quéda não lhe tem custado horas d'uma tormentosa reflexão?

—Declaro-lhe que abomino o estylo pathetico, fujo de entrar no sorvedouro da minha consciencia; ainda assim, para lhe mostrar que não sou insensivel á sua pergunta, respondo: tenho soffrido; tenho-me espantado da logica maldita dos meus infortunios, tenho combinado a minha ultima desgraça com o meu primeiro crime, tenho desejado morrer; mas, ao cabo de tudo, reconheço que as minhas desventuras são fataes, não as posso encadear, não sei prevenil-as, sou victima da minha organisação, obedeço ao fim para que fui creado, tenho tanto arbitrio no mal como o senhor no bem, represento o crime ao mesmo tempo que outro representa a virtude. Ora aqui tem o que me faz reflectir, estudar, e abrir a golpes o segredo do meu coração. Não consigo nada com isto, e evito o mais que posso os assaltos do pensamento. Que valem torturas de que se não sáe com o coração purificado? Antes de assentar praça, tive muitos d'esses exames de{106} consciencia, e fugia d'elles, e de mim, aterrado. Cheguei a desconfiar que me estava reformando na desgraça; mas o que se não reformavam eram as minhas botas, por que cheguei a pedir a esmola d'umas botas a um criado de meu pae. Ora, não ha reforma possivel n'um philosopho descalço. Eu queria ser pessoa de bem; mas entendo que os bons instinctos renascem no coração do perverso, quando o terrivel assedio das desventuras levantam o cêrco. Um rapaz, affeito ao luxo das commodidades, e pervertido n'ellas, não se divorcia voluntariamente do vicio, na indigencia. Se meu pae não está doudo n'essa occasião, e me recebe com carinho, e me perdoa sem me repellir da sua amizade, e me não nega o necessario para a decencia, parece-me que a minha vida passava por uma subita transfiguração. Aconteceu o contrario: vi-me abandonado; entendi que não havia Providencia para mim, e desobriguei-me de respeital-a.

—E lucrou, desobrigando-se?

—Não: bem vê que sou desgraçado, e talvez nunca recue n'este caminho em que vou.

—Mas deve recuar...

—Crê que é possivel? Diga lá como se é honrado.