—Sendo para os outros o que desejamos que elles sejam para nós.

—Os outros tem sido para mim algozes.

—Todos?

—Todos, sim.

—Então o senhor não tem feito victimas?

—D'essas victimas que por ahi fazem todos os dias os honrados pelo suffragio publico. Desarranjei o futuro de algumas mulheres; mas penso que todas vivem mais ou menos felizes. O desgraçado sou eu.

—E sabe que todas vivem felizes? A filha da viscondessa de Bacellar será feliz?

—Não sei; mas creio que sim. Dizem que vive n'uma quinta do infame padrasto, e naturalmente achará, como todas as outras, um marido, que não lhe encontre desfalque nenhum no coração. Essa mulher é um exemplo, que eu lhe cito, meu caro senhor, da fatalidade, que me persegue. Se ella fugisse com outro homem, o padrasto dotava-a, e ella casaria, fazendo a completa ventura do marido.{107} Como fugiu comigo, o padrasto insultou-me, cobriu-me epithetos affrontosos, obrigou-me a partir-lhe a cabeça...

—E a abandonar a pobre menina, que não era responsavel pelas antipathias do padrasto...

—São cousas ligadas... o abandono explica-se por não poder explicar-se... Digo-lhe sinceramente que não sei o que havia de fazer a essa mulher. Entendi que abandonal-a era restituil-a á mãe; e conserval-a minha amante era obrigal-a a cahir comigo no abysmo da miseria, fazendo-a testemunha dos esforços criminosos que eu faria para não cahir... Não me enganei... Assucena é hoje mais feliz sem mim... Estimo até que ella ignore a minha situação. O senhor conheceu-a?