—Ai! que eu estalo! clamou Theodora, apertando a cabeça entre as mãos.

—Seu marido, se a senhora o vir agora não o conhece. Está mais apanhado do corpo; aquella barriga, que elle tinha, sumiu-se-lhe. Tem um bigode muito grande, e aqui no queixo uma moita de pellos, como os bodes. Traz os cabellos puchados para cima e retorcidos. Usa oculos á moderna, de oiro, pendurados ao pescoço. O panno de roupa luzia como vidro, e andava apertado n'ella e puchado á substancia que parecia espremido no peso do lagar. Repito: a sr.^a morgada, se o vir, não o conhece.

—E então elle está lá com essa mulher? insistiu soluçando a quebrantada senhora.

—É verdade, lá a tem como uma princeza. Agora já sabe a fidalga no que elle estraga o dinheiro.

—E vocemecê não lhe disse que viesse para sua casa?

—Ora se disse! chamou-me parvo e asno. Asno a mim fidalga! E eu acommodei-me, porque não quero testilhas com doidos. Afinal, eu estava a vêr quando me empurrava pela porta fóra! Aqui tem o que ha a tal respeito. Sirva-lhe de governo, sr.^a morgada. Agora, faça por ter mão na manta. A casa é grande; mas tem-se visto acabarem casas maiores. O que a fidalga deve fazer é não deixar ir pela agua abaixo o seu patrimonio.

—Não, que eu vou a Lisboa!—exclamou ella batendo o pé, e vibrando murros contra o ar.—Vou a Lisboa, e faço lá o diabo!… Então a tal mulher está n'uma serra? Vocemecê disse que ella estava n'uma serra?…

—É serra; mas a terra é bonita. Ha por lá arvores do começo do mundo, e cada pedaço de jardim que dava trezentos alqueires de centeio. Chama-se Cintra, e está lá o rei e a fidalguia.

—Pois vou lá, que o meu homem é meu—vociferou ella voz em grita.—Se elle não quizer vir para casa, vou fallar ao rei e aos governos.

—Fidalga, pense bem no que faz, e ouça o que lhe diz o senhor seu primo Lopo de Gamboa, que sabe mais do que eu. D'aqui me vou a vêr a minha gente, e até amanhã, fidalga.