Doida de afflicção, a traida esposa mandou logo um criado á casa da
Verdoeira chamar o primo Lopo de Gamboa.
Este Lopo, bacharel em direito, homem de trinta e tantos annos, e sagaz até á protervia, vivia na companhia do irmão morgado, comendo o rendimento da sua escassa legitima de filho segundo. Tinha máo nome em materia de mulheres. A bruteza dos espiritos não lhe implicava o exercicio de tramoias e bom palavriado com que mareara a reputação de muitas moças, que, á conta d'elle, ficaram solteiras; e tambem de algumas casadas, que não conservam as costellas todas.
Calisto desadorava este primo de sua mulher, em razão das suas ruins manhas; não obstante, admittia-o ao seu trato familiar, e consentia que Theodora, uma vez por outra, lhe désse alguns pintos para charutos, já que o morgado lh'os não dava, sem lançar o emprestimo a desconto da legitima.
Theodora, com quanto o excedesse em edade uns quatro annos, tinha sido creada com elle, e por suas mãos lhe fizera o enxoval, que o primo Lopo levou para Coimbra. Esta poesia de infancia converteu-se n'ella em sentimentos benignos de generosidade para com as privações monetarias do sujeito, algumas das quaes lhe remediou liberalmente a occultas do marido. Mais se afervorou a estima da prima Theodora, quando viu que Lopo, na ausencia de Calisto, amiudava as visitas, e lhe fazia companhia ao serão nas noites de inverno.
Mandou, pois, a esposa angustiada chamar o primo Lopo de Gamboa. Já raivosa, já em mavioso soluçar, contou Theodora o que ouvira ao mestre-escola.
—Bem t'o agourava eu, prima!—disse Lopo, concluidos os queixumes de Theodora.—Eu sei o que são homens. Quando meu irmão morgado e outros santarrões me apontavam como exemplo as virtudes de teu marido, dizia-lhes eu: «Tirem-n'o da aldeia para Lisboa ou Porto, deixem-n'o lá estar dois mezes, e fallem-me depois á mão.» O Calisto vivia bem com todo o mundo e comtigo, Theodora, porque se apaixonou pela livralhada, e encheu a cabeça d'aquellas velhas arólas dos seus classicos, e não queria saber de mais nada. E, além d'isso, diz-me tu prima, que grande amor era o d'elle por ti? Passavam-se dias e noites que o não vias, senão enterrado na livraria. Nunca lhe vi fazer-te uma meiguice!
—Pois fazia; estás enganado, Lopo—atalhou D. Theodora, molestada no instincto da sua vaidade de esposa.
—Parecia-te isso, prima, porque tu não viste ainda como os bons maridos acariciam as suas mulheres. Nunca te levou aos banhos do mar, precisando tu de tonicos; nunca te levou a festa nenhuma de Miranda nem de Bragança; sendo tu a mais rica herdeira d'estes arredores, deixou-te viver para ahi sujamente; a cuidar em sevados e gallinhas. As senhoras, que não te chegam em fidalguia aos calcanhares, vivem á lei da nobreza, visitam-se, tem os seus bailes, vão ás romarias ricamente vestidas; e tu?… chorava-me o coração, quando vim de me formar, e te visitei, e vim dar comtigo a cortar couves para fazer a comida dos patos.
—Isso é porque eu gosto.
—Muito embora gostasses; teu marido não devia consentir que o fizesses. Trabalhar é bom e necessario; mas cada qual trabalhe segundo a pessoa que é. As senhoras cozem, bordam, marcam, e dão-se a outros muitos cuidados domesticos e limpos. Os serviços, que tu fazias, pertencem ás criadas da cosinha. De maneira que a tua riqueza não te dava o descanço e bem estar que desfrutam as pessoas da lavoira. Esta casa parecia-me sordida; e, apezar das grandes sabenças de teu marido, ainda não vi casados que tão estupidamente vivessem! Ahi está agora teu marido a despejar sacas de dinheiro no regaço de uma amasia, e tu aqui de vestido de chita e chinellas! Tu!… de chinellas!… Foi bom que levasses vida de negra vinte annos para elle agora levar em Lisboa vida de principe!