—Não ha de levar, que eu vou lá!—bradou Theodora assanhada pelas reflexões do primo.
—Não vaes, prima, que os teus parentes não consentem que tu vás ser em Lisboa motivo de gargalhadas d'aquella gente, e maltratada por Calisto. A morgada de Travanca, a filha de Francisco de Figueirôa, não vae, como as mulherinhas da ralé, procurar o marido fóra de sua casa. Se elle vier, veiu; se elle ficar, fique embora. Gaste o que quizer, mas que não gaste a casa de sua mulher. N'este paiz ha leis que separam do máo marido a esposa affrontada, e prohibem que os bens dos Figueirôas sejam desbaratados em devassidões de um extravagante.
—Eu não quero separar-me do meu homem!—balbuciou ella afogada de soluços.
—Tambem te não aconselho a que o faças por em quanto, prima. Ainda é cedo. Póde ser que teu marido caia em si, e se arrependa. Isto da separação é um remedio extremo, que se ha de applicar no caso de continuarem os saques de dinheiro como até aqui, e os embustes infames com que o Calisto te tem enganado. Ai! prima, prima, grande desgraça foi para ti e para mim, que te esquecesses do nosso amor de creanças, e tão depressa aceitasses o casamento com este homem! Eu estava a concluir a minha formatura, resolvido a pedir-te, e casar comtigo, quer teu pae quizesse, quer não. Nunca t'o disse; digo-t'o agora, porque a minha dôr me obriga. Não serias tu mais feliz, se casasses com teu primo Lopo?
—Eu sei cá?…—disse ella, alimpando as lagrimas.
—Pois duvidas, Theodora?
—Tu tens sido um estroina com mulheres…
—E não sabes por que?
—Não…
—Desesperado por te encontrar casada, quando cheguei de Coimbra, não tratei mais de me ligar seriamente ao coração de mulher nenhuma. Queria distrahir-me, e fazia desatinos que me tornavam ainda mais desgraçado. A minha consolação unica era estar alguns momentos ao pé de ti; mas quantas vezes, eu saía do teu lado com o coração cheio de fel!… Nunca te disse uma palavra por onde tu desconfiasses o meu estado, pois não?