—Tu o que me dizias ás vezes é que estavas afflicto por causa de dividas, e eu dava-te o dinheiro que podia arranjar…

—É verdade: foste sempre o meu bom anjo, prima; mas olha que essas mesmas dividas as fazia eu para poder sair d'estes sitios; ia para as feiras, para as caldas, por toda a parte á busca de distracções, e não achava coisa que me distraisse de ti o pensamento. Toda a gente da nossa parentella me aborrecia, menos tu. Ora imagina, prima, que tormentosa vida a minha desde os dezenove annos! Amar-te, amar-te sempre, e vêr-te mulher de outro homem; e, de mais a mais, de outro homem indigno de ti! Céos! que martyrio! que martyrio!

Lopo cobriu a cara deslavada com as mãos enormes.

Theodora estava como idiota a olhar para aquillo, sem poder atinar com as sensações atrapalhadas que aquellas palavras lhe causavam.

Ergueu-se o velhaco de golpe, e disse:

—Adeus, prima: eu estou profundamente magoado com a tua desgraça; doem-me mais os teus pezares que os meus. Disse-te o que me pareceu rasoavel a respeito de teu marido, d'esse cruel que me roubou a mulher do meu coração, da minha alma, da minha vida, e da minha morte. Adeus, prima!

—Tu vaes afflicto, Lopo!—exclamou ella, resahindo do spasmo tolo em que estivera—Vem cá; se te aconteceu alguma desgraça, remedeia-se como poder ser.

—Ha doenças sem remedio, prima. A minha é mortal.

—Então que tens, primo? que te dóe?

—Doe-me a certeza de que estou morrendo desde o primeiro dia da tua união com este homem!… a certeza de que o has de amar sempre, ainda que elle te despreze como já te desprezou.