—Pois se elle é o meu homem recebido á face do altar!…

—Por isso, por isso, é que eu perdi o teu amor, Theodora!…

—Pois eu sou casada, bem no sabes, senão teria casado comtigo.

—Não fallemos mais n'isto—atalhou com muita serenidade Lopo—Já chorei, e fiquei melhor!—continuou elle esborrachando os olhos até elles reverem agua—Estas lagrimas estavam aqui no peito ha vinte annos. Foi bom que tu as visses para que saibas que o homem que chora por ti, bem mais te merecia que o outro que te despreza… Queres mais alguma coisa de mim, prima? Queres que eu escreva a teu marido, e lhe diga que seja honrado e digno da melhor das esposas? Queres que eu mesmo o vá procurar a Cintra?

—Se tu lá fosses, Lopo, não seria máo!—disse ella.

Lopo de Gamboa, como grande farçola que era, sentiu impulso de desfechar uma risada na cara da prima. O homem viu-se ridiculo até onde a consciencia de um bargante se póde vêr a si mesma.

Reteve-o, porém, a coherencia do seu plano. Resolutamente disse que iria a Cintra, bem que nenhum sacrificio lhe podesse ser mais cruelmente imposto ao coração.

—Irei, disse elle, irei buscar o marido da mulher que adoro. Venha mais esta punhalada da tua mão, prima.

—-Valha-me Deus!—exclamou ella afflictivamente.—Tu dizes-me coisas que me fazem endoudecer! Pois tu não vês que eu já não posso dar o meu coração a outro em quanto fôr casada com um?

—Vejo que me não amaste nunca, Theodora. Diz a verdade… Nunca me tiveste amor?