O moço lembrou-se do sonho de sua mãe, e respondeu beijando-lhe a mão.

Ainda agora chegava Francisco Lourenço. Pediu que o deixassem approximar de Paulina, e disse com a voz convulsa de lagrimas:

—Eu lhe agradeço, minha senhora! Eu lhe agradeço o bem que faz ao meu virtuoso filho. Deus a abençôe, santa, que soube avaliar os merecimentos d'este anjo. Deixe-me rojar as cans aos seus pés, que não ha desaire n'esta humildade do pobre velho, ainda que elle fosse um rei!

Paulina abraçou-se expansivamente ao artista, e chamou-lhe pae.

—Pae! meu Deus!—exclamou elle—Com que liberalidade me pagaes os padecimentos de alguns annos! Minha filha, que immensa alegria vem trazer a tantos que a pediam ao Senhor! Eu quero que meu filho sinta mais intensa felicidade que eu!...

Paulina sahiu amparada ao braço de Fernando, e no pescoço de Maria Luciana. Entraram na saleta da livraria. Era a riqueza d'aquella casa. Sentou-se a ditosa na cadeira de Fernando, junto á meza onde elle fazia as suas leituras. Relanceou os olhos sobre a mesa, e viu na capa d'um grosso volume de papel almasso esta palavra—Paulina.

Lançou rapida mão ao livro. Leu das ultimas paginas escriptas as linhas finaes, que diziam assim:

«Porque te vejo ainda, ó abençoado anjo do meu infortunio! Que luz é que tu me mandas em sonhos, se o meu despertar é sempre no meu abysmo de saudade?... Ainda te verei, ó Paulina?...»

Ergueu-se, escarlate d'alegria, o anjo abençoado d'aquelle augusto infortunio, abraçou Fernando com fremente ardor, e disse:

—Pois não vim eu trazer-te a luz dos teus sonhos, meu querido Fernando?