—Andará a viajar para conhecer se ella o ama, e sente a ausencia—disse Paulina.

—A dama está em Florença. A formosa Paulina conhece-a.

—Eu!...

—Sim, minha senhora. Digo-lhe o grande amor de Fernando, e peço-lhe que o salve.

O pintor ia retirar: Paulina exclamou:

—Venha cá... explique-me esse mysterio... Eu conheço a senhora portugueza que Fernando ama?!

—Os anjos de innocencia nem mesmo tem o coração que adivinha?—replicou Leopoldo—Hei de eu por força dizer-lhe que Fernando queria morrer sem que a imprevista Paulina soubesse que o matava?!

As meninas não proferiram um monosyllabo. Leopoldo, o ascetico amante de Carlota Napoleão, approximou-se de Fernando, que falava com a princeza. Levava nos olhos uma alegria desusada. Carlota mudou de local, e o pintor disse a Fernando:

—Quebrei o encanto. Paulina sabe que a amas. É bom que estas mulheres se glorifiquem com saberem os nomes das victimas. Morrer obscuramente!... morrer ignorado da mulher por quem diluimos a vida em lagrimas de sangue! Isso não! é preciso abrir larga fenda no peito, arrancar fóra o coração, e mostrar-lh'o. Então sim! ao menos servimos á gloria da mulher que se amou. Ella, se não póde dizer «amei-o,» diz «matei-o!» e póde ser que o diga com piedade; venha, pois, essa piedade posthuma, que deve ser regalo do cadaver! Que maior serviço posso eu fazer-te, amigo?

Fernando apertou convulsamente a mão de Leopoldo, saiu aos jardins a dilatar o peito, a desdobrar da alegria que vos commove como os assaltos do medo. O pintor não o seguiu, dizendo: