—Vae só, que eu não tenho alegria nem lagrimas que esconder. Recorda-te sempre de mim: propiciei-te o idolo em cujas aras era desconhecido holocausto. Agora pódes acabar, que cumpristes a tua missão. A minha ainda está imperfeita.

Para que o leitor me não tome como cousa de destemperada imaginativa este Leopoldo Roberto, pintor francez, amante de Carlota Napoleão, peço-lhe que abra um livro de Eugenio Pelletan, o qual livro se chama Horas de Trabalho. Ahi, por algures, achará em resumo, n'aquella linguagem diamantina do illustre professor de philosophia, a historia dos amores; e, logo na pagina seguinte, a historia do suicidio do pintor.

Hão de ver como elle atirou com o peito ás puas do despedaçador impossivel, e arquejou voluptuariamente n'aquellas agonias, sem esperança de sentir a mão da princeza enxugar-lhe o suor glacial. Reparem no quadro que elle aperfeiçoou na vespera do seu dia final. São scenas campezinas: obreiros que vão ás ceifas e voltam dos campos coroados de espigas. Oh! que formosissimas visões antecedem os paroxismos do talento! Que lucido agonisar o dos genios? Quem ha de crêr na mortalidade da alma, quando ella assim se rejubila ao pé do golfão em que o corpo se despenha como pedaço de materia postulosa e tábida?

E não te salvou o anjo da arte, ó poeta das primaveras, dos arreboes, e dos crepusculos? Não tinhas uma Galathea em cada uma das tuas camponezas? Não te palpitavam aquelles corações debaixo da palheta? Já sabias que a tua immortalidade estava á porta do seu templo, para abrir-t'o logo que a lousa te batesse em cheio sobre o craneo estalado pela bala?

Que princeza te valia uma inspiração das tuas noites desveladas!

Quantas rainhas de virtudes deixaste lá em baixo escondidas nas florestas que perpetuaste em teus quadros!

E não as amaste, como prodigo, e as déstes ao mundo, que t'as ama e as adora nas galerias, nos museus, nos empórios das summas maravilhas do bello!

Olha ahi por esses palacios de principes, na Florença, em que premeditaste morrer, olha ahi como as turbas se enlevam no teu genero immorredoiro!

E vê tu quantas princezas, como a tua Carlota Napoleão, desceram do solio ao exilio, do exilio á tumba, da tumba ao esquecimento; e os teus poemas ficam; e o teu espirito revive em céo e terra, e o homem pára diante da tua sombra, e deplora que uma princeza não subisse a ti para tu não desceres a procura-la no bojo negro do teu inferno, ou nas explendorosas serpes da chamma em que te abrasaste, ó crysalida d'um anjo!

[VII]