—Se elle m'o fizesse assim acreditar!...—replicou ella.
O conde inferiu que Paulina estava cançada das virtuosas, incomprehensiveis e fastidíosas singularidades de Fernando. E assim, muito á puridade, o communicou ao secretario.
Bartholo chamou Paulina, e mostrou-lhe cartas de Lisboa. A importancia d'estas cartas ha de ressumbrar na seguinte, que ella escreveu a Fernando:
«Meu querido amigo.
«Nem a cegueira do amor me engana. As tuas cartas dizem-me tudo que está em tua alma. Eu não sei por que desmereci aos teus olhos. Não sei, Fernando! Aquella impensada fuga que eu havia de fazer, com teu consentimento, creio que me tirou todo o prestigio. Esta pobre formosura, que tanto encarecias, já te não inspira mesmo as palavras animadoras que releio nas antigas cartas, com o coração traspassado de dôr! O ser rica sabia eu que era cousa nenhuma em teu conceito; mas o ser-te leal ha dois annos, á custa de tormentos tamanhos, cuidava eu que seria um titulo á tua eterna dedicação. Louca mulher, que tão vaidosa julguei merecer o que o mundo não póde dar! Com que me recompensas tu o fel que eu tenho tragado desde que voltei dos teus frios braços para debaixo dos olhos severos e queixosos de meu pae? O teu esfriamento é incrivel! Se me dissessem que amas outra mulher, comprehenderia o homem e a ingratidão. Mas sei que vives só, que vives triste, que tudo te é indifferente, e eu mesma quasi esquecida! Cada carta que me envias é como obrigada pela delicadeza. Palavras inintelligiveis, apprehensões vagas, e nenhuma em que me digas positivamente o que pensas, e esperas de mim! E eu amante como sempre! Capaz de tudo, mas incapaz de me abalançar a novos sacrificios, sem que me tu digas corajosamente: «Luctemos de novo!» Porque m'o não dizes, ó Fernando!?
«Ainda agora saí do quarto de meu pae, onde fui chamada, e entrei a tremer. Mostrou-me cartas de Portugal, cartas forjadas talvez aqui, e mandadas lançar lá no correio. Todas falam de ti miserias que eu me pejo de dizer. Mas adivinho que desejas ouvi-las. Creio que, em dizer-t'as, te allivio de conjunturas dolorosas. Noticiam que teu pae é um sapateiro de Lisboa, que tua mãe era colchoeira, e que andas por aqui a estragar as economias de teu pae, em quanto elle lá está quebrado de trabalho, cerceando ao pão de cada dia para te sustentar uma vida aventureira. São assim miserias d'este jaez. Irritou-me a alegria de meu pae, quando elle com ar de victoria me estava lendo estas calumnias. Não tive mão em mim, e disse-lhe: «Isso é tudo falso. Se o pae de Fernando fosse um sapateiro, não iria visita-lo a Londres, nem lhe daria a decencia com que tem vivido ha dois annos em Florença, aqui, e em toda a parte. Meu pae encontrou-o em casa d'um principe, e o principe de Monfort não aperta a mão a filhos de sapateiros, nem ministros de Portugal em Hespanha o tratariam com tanta consideração, se elle fosse o que essas cartas dizem. Meu pae enfureceu-se dizendo que o Almeida era filho d'um latoeiro, e por isso occultava o teu nascimento...»
Fernando, n'este ponto, machucou a carta na mão direita, e atirou-a aos pés.
RESPOSTA
«Minha senhora.
«Não mentiram ao pae de vossa excellencia. Sou filho d'um sapateiro, e d'uma colchoeira. Meu pae está ganhando o pão que me sustenta, e vendendo as suas economias para suprir ás despezas que o seu trabalho não alcança. O sapateiro foi a Londres, é certo; mas não foi visitar-me, como vossa excellencia presume: foi pedir-me que voltasse á pobre casa, onde minha boa mãe me chamava para me abraçar antes de morrer. Ensurdeci ao chamamento de minha mãe, e não vi as lagrimas de meu pae. Vossa excellencia tinha-me levado ouvidos e olhos, deixando-me no coração apenas a fibra do remorso de ser mau filho.