«Humilho-me diante de vossa excellencia, não como filho do sapateiro, mas avergado pelo arrependimento de lhe ter occultado a minha humilde origem. Foi o coração que me trahiu, dizendo-me que para vossa excellencia era cousa de nenhuma significação o meu nascimento. Penso que devo ser desculpado d'esta falta: seria grande extranheza andar eu divulgando o meu nascimento. Eu tinha estado em França, e vira ministros sahirem das officinas: e o mundo respeitava-os pela honra dos paes, e por sua elevação com esforços proprios. Tudo me induziu, não a esquecer-me de que meu pae era sapateiro, mas a presumir que me era licito com minhas acções continuar a ser honrado como meu pae, sendo certo, minha senhora, que eu nunca ousei suppôr que meu pae carecia de minhas virtudes para se dar nobreza de si.

«Faz-me pena o desgosto de vossa excellencia quando esta carta estiver lendo!

«O que a senhora D. Paulina de Briteiros tem soffrido por minha causa! Que mal empregados sacrificios!

«Não foi a mão de Deus que a susteve á borda do abysmo, minha senhora? Que immensa vergonha e agonia devia ser a sua, se vossa excellencia a esta hora fosse minha mulher?! Que torturas irremediaveis! Como havia dizer-lhe eu em Portugal o nome de meu pae?

«Nunca pensára n'isto!... Agora me parece incrivel que não pensasse!

«Escrevo-lhe com quanta quietação de espirito se póde, minha senhora. O coração está esmagado. Matou-o a vergonha de ter pulsado em tão baixo peito, vergonha que eu confesso sentir diante da sombra de vossa excellencia, agora, e sempre.

«Veja que horrivel organisação social esta, senhora D. Paulina! Diga vossa excellencia em sua intima e clara razão, se eu merecia ser vilipendiado por meu nascimento, emquanto não praticasse alguma acção infamante! que mal fiz eu á sociedade em ter nascido de operarios?... Desculpe-me vossa excellencia estas perguntas vans, desordenadas e indignas da sua attenção.

«N'este momento vou queimar as cartas de vossa excellencia, menos d'esta ultima a pagina em que, por suas mãos, a Providencia me ministra uma lição, que me póde ainda levantar diante de mim mesmo.

«De novo lhe rogo me perdôe, no silencio de sua consciencia, porque as suas palavras já não poderei vê-las escriptas. Subscrevo-me, com quanto respeito me inspiram suas virtudes, creado de vossa excellencia

«Fernando Gomes.»