—Enterro!—exclamou Mafalda, escondendo o rosto no seio do pae.
Ao escurecer recrudesceram os padecimentos de Fernão de Teive. Por volta de meia noite, com toda a luz da razão, e clareza de voz pediu os sacramentos, e conversou até ás duas horas. Ao amanhecer dormiu um somno quieto, e acordou afflicto. Pediu a extrema-uncção, e respondeu durante a ceremonia as palavras rituaes em irreprehensivel latim. Depois, chamou a filha, beijou-a, deu-lhe a beijar o crucifixo, que tinha entre mãos, reclinou-se para o hombro d'ella, dizendo:
—Sobre este hombro expirou minha irmã... Se alguma vez vires o filho da santa mulher dá-lhe um abraço... e tu, filha... adeus até ao céo.
Mafalda rompeu em altos clamores. Fez-lhe o pae um gesto de silencio com os olhos.
Foi este o derradeiro gesto d'aquelles olhos, fitos já na aurora da eternidade, e fechados para sempre sob os labios de sua filha.
[XXII]
Eram atrozmente verdadeiras as informações communicadas pelo desembargador Figueirôa sobre a desfortuna de Affonso de Teive em Paris.
Os quinze mil cruzados, producto supposto da quinta de Ruivães, enguliu-os a voragem do jogo de fundos, á qual o allucinado moço se atirou ás cegas, contando com a vicissitude favoravel, por ter sido infeliz nas outras.
Resolveu matar-se. Esta deliberação contrabalançou as agonias da pobreza desesperada.—Como via a morte no leve movimento d'um gatilho, deixou de encarar o futuro. Que lhe importava morrer pobre?! Encheu-se de coragem, e deu graças a Deus pela fortaleza que lhe dava. Ajuntou os objectos de ouro e pedras que reservára para aquella hora premeditada. Chamou o criado, e disse-lhe: «Vende isso que ahi está. Creio que o valor d'essas cousas bastará ao pagamento do que te devo em dinheiro e soldadas: se algum resto houver a maior, leva-o para te passares á tua terra.»
—E o fidalgo onde fica?!—perguntou o Tranqueira.