—Aqui!—disse Affonso.

—Pois tambem eu, patrão! Já agora, tenha paciencia; gastei a mocidade em sua casa; a velhice por cá a levarei n'esta endiabrada terra, como Deus fôr servido. Guarde lá o fidalgo as suas cousas, que eu não as quero, nem lhe pedi nada. Para eu viver, basta-me uma carroça e um cavallo estropiado. Arranje v. exc.ª a sua vida, que eu cá me irei arranjando.

—Cumpre as minhas ordens, Tranqueira!—replicou Affonso com fingida severidade.

—Perdoará, snr. Affonso...—volveu o criado—É a primeira vez que lhe desobedeço. Eu não recebo nada em quanto o não vir com outro arranjo de vida.

—Faz o que quizeres...—redarguiu o moço, embolsando a punhados os objectos que offerecera ao criado, na intenção de sahir para vendel-os.

Tranqueira desconfiou do intento suicida do amo. Apenas esta suspeita lhe saltou de repente ao animo, atravessou-se á porta do quarto, exclamando:

—O fidalgo não é homem, por mais que me digam! Ha Deus ou não ha Deus?! Então sua mãesinha esteve a criar um menino na lei de Christo, para v. exc.ª dar esta sahida! Pensa que eu não sei o que lá tem na cabeça? O snr. Affonso quer dar cabo de si... Pois, ande lá por onde quizer, que eu nem de dia nem de noite o largo mais... Matar-se, por falta de dinheiro, um moço de vinte e cinco annos, que sabe lêr e escrever, e em boa saude! Isso não o faz homem nenhum no seu juizo! Quem precisa trabalha; se não é n'isto é n'aquillo. E os que perdem tudo o que tem n'um fogo, ou no mar, matam-se? Ora, snr. Affonso, eu dos annos que tenho ainda não topei homem tão desanimado!... Valha-o a alminha da snr.ª D. Eulalia! Quer o fidalgo uma cousa? Eu vou vender algum d'esse ouro que ahi tem, e vamos para Portugal. Seu tio desembargador mostra que é seu amigo, e o snr. Fernão de Fonte-Boa morreu sempre por v. exc.ª Não se lhe pede dinheiro nem cousa que o valha; pede-se-lhe que o arranjem em algum emprego limpo. Trabalhar não é vergonha, é honra, fidalgo!... Que me diz? que responde ao velho Tranqueira que o trouxe ao collo, e aqui está de joelhos aos seus pés?

E abraçou-se-lhe aos joelhos, com os olhos inflados de lagrimas.

Affonso levantou-o nos braços trementes de grata commoção, e disse-lhe com transporte:

—Trabalharei, meu amigo, trabalharei... Descança, que eu não me mato... A desgraça me irá matando.