Com referencia áquellas chãs e firmes expressões do servo rustico, me disse Affonso:
«Eu tinha lido na vespera d'aquelle dia uns livros de insinuante moral, e consolação a desvalidos, pedindo-lhes crença que me esteiasse na desesperada crise de homem, sem nenhum escape na cerrada negridão de sua vida. Doutrinas e exemplos de evangelica uncção, factos tormentosissimos de angustia e admiraveis de conformidade, desde Job até ao maior homem do mundo na rocha de Santa Helena, nada me impressionára, nada me demovera do suicidio. Vi uma restea de luz instantanea reflectida do rosto de Mafalda! Pensei que era o anjo da santa melancolia a despedir-se do precito, que o repellira. Ainda o apêgo á existencia, exprimindo-se nas phrases positivas d'ella, me quiz mostrar a felicidade possivel no casamento com minha prima. Afastei com tedio de mim proprio este impudor d'alma envilecida pela desgraça. O homem rico não reconhecera a virtude de Mafalda, senão para admiral-a; o homem desvalido havia de ir depois pedir á virtuosa que o aceitasse como marido!... Tive medo que outra vez me acommettesse o pensamento vil. Dei-me então pressa em abreviar o termo da lucta! Depois d'isto, como é possivel que as rudes palavras d'um criado me abalassem desde a profundeza de minhas convicções ácerca da coragem do homem que se mata? Como logrou elle o que os livros consoladores não vingaram, nem os estimulos indecorosos a um casamento rico? Foram aquellas palavras: quem precisa, trabalha, ditas pelo homem que as tirára da sua consciencia, como se ellas lá descessem do céo, n'aquelle momento, para me serem ditas, não pela pagina de um livro, mas pela bocca de quem as dizia, chorando.»
Affonso de Teive, com mais coragem do que a necessaria para o suicidio, dirigiu-se a uma casa de commercio de judeus de procedencia portugueza, residentes em Paris. Conhecera Affonso um mancebo d'esta familia no concurso das pessoas bem qualificadas. Procurou-o, e contou-lhe o seu estado, offerecendo-se a trabalhar no escriptorio, segundo sua aptidão. Os commerciantes aceitaram-o como terceiro ajudante de guarda-livros com ordenado de dous mil francos.
Vendeu Affonso as suas joias, e alugou uma mansarda, que mobilou, consoante a escolha de Tranqueira, pobre e limpamente. O criado comprou um cavallo, a que elle chamava um milagre, e uma carroça, com que trabalhava de carrejão, nas horas occupadas do amo. Ás horas convencionadas, o Tranqueira ia buscar em marmitas um jantar economico para ambos, todavia aceado e abundante. Affonso passava em casa as noites, estudando a lingua ingleza para poder adiantar-se na sua carreira, até merecer os seis mil francos de primeiro adjunto ao guarda-livros.
Se era feliz assim?
Oh! não: nem tudo que é honroso se ha-de crêr que seja felicidade. A degenerada natureza do homem quadra violentamente com as mudanças assim abruptas, com as quedas de tão alto! O magnificente amante de Palmyra, o moço blandiciado nas salas do seu palacio do Campo Grande, reclinado por sobre coxins de sêda, inventando regalias com que desanojar a sua ociosa saciedade, certamente não podia escrever odes á fortuna amiga, quando sahia de escrever cifrões no escriptorio mercantil. O reportar-se tambem não é ser feliz; é, no maximo das vezes, um martyrio consecutivo de triumphos obscuros; porém, martyrio sempre!
E, depois, Affonso entrava futuro dentro, phantasiando mudanças, chimeras, paradoxos, que o volvessem a uma felicidade, que elle bem nem mal sabia definir, ou estremar do que vulgarmente se diz que ella é. D'estas vãs e ardentes consultas ao porvir, voltava o moço ao refrigerio do trabalho, e assim o tempo ia derivando, branqueando-lhe os cabellos, e quebrando-lhe os espiritos.
Em Lisboa era sabida a situação de Affonso de Teive, não que elle a contasse. Escrevia ao tio Fernão raramente, sem de leve tocar em negocios. Respondia ás cartas d'algum raro amigo, que o julgava ainda em circumstancias de lhe não pedir emprestimo para se resgatar de Clichy.
N'este tempo, recebeu elle novas de Palmyra, não solicitadas. Dava-lh'as assim um dos seus commensaes de Lisboa:
«...... A mulher surgiu aqui, vinda não sei d'onde, pompeando com tanto esplendor e mais estupidez que no teu tempo, ou melhor direi, no teu reinado.»