«Vi-a em S. Carlos, hontem, sosinha na friza. Disseram-me, porém, que lá, no reconcavo do camarote, estava um homem gordo, de tez abronzeada, e vista suina. Dizem que é brazileiro do Minho, outros diziam que era o marido envergonhado. O D. José de Noronha, desde o banho da cisterna, nunca mais se endireitou do espinhaço, e vai a tisico irremissivelmente. Não ha memoria d'uma catastrophe assim nos fastos dos Lovelaces patifes d'este nosso quintal do tio Lopes. O D. Antonio de Mascarenhas assevera-me que Palmyra nunca mais teve uma palavra de consolação para o derreado amante. O teu criado matou estes amores com tamanha ignominia, que já não ha ninguem que queira amar mulher em casa onde haja cisterna... Irei dizendo o que souber da Laiz minhota.........»
Affonso leu glacialmente a carta, e não respondeu ao noticiador.
—Que sentimento fez em ti essa nova?—perguntei eu.
Affonso encolheu os hombros, e disse:
—O sentimento da piedade. Não podia ser amor, porque não ha infamia d'alma que desça até ahi. Odio tambem não, que o odio quer vingança, e eu dava-me já por vingado da mulher a resvalar, no plano inclinado, não sei até que ordem de abysmos. Era piedade o que eu sentia, e tanta que, se me viessem dizer que Palmyra, dentro de um anno, perdera a formosura, que vendia, os bens, que herdára, e se desgraçára até á extremidade de pedir o pão de cada dia, eu faria do meu pão dous quinhões, e um mandar-lh'o-ia, sem insulto nem palavra recordadora do passado.
Esta foi a resposta de Affonso de Teive. Eu acreditei, porque tinha visto o mundo, e não ha nada que eu não acredite.
[XXIII]
Ao escriptorio commercial, onde o meu amigo trabalhava, chegou, ao fim da tarde, do dia 15 de Julho de 1853, um empregado da embaixada indagando a residencia do portuguez Affonso de Teive.
Sahiu com o esclarecimento em demanda d'outro portuguez, que se apresentára ao ministro, com importantes recommendações de Lisboa. A nota da residencia era rua Vivienne, 104, 5.º andar, lado esquerdo; quem a recebeu da mão do encarregado foi uma senhora, que a passou logo a um sujeito de cabellos brancos, trajado de sacerdote.
O leitor não se deixa surprehender mais tarde: já sabe que a senhora é Mafalda, e o sacerdote é o capellão padre Joaquim de S. Miguel.