Rosa ajoelhou-se, e depois de ter rezado com fervor e devoção por algum tempo, levantou-se, e dando o braço á viscondessa retiraram-se, fazendo ainda uma ultima visita ao tumulo de D. Julia.

Quando se recolheram, Rosa encontrou uma carta da sua antiga professora D. Maria d'Almeida, na qual lhe participava, que d'ahi por dous mezes se havia de proceder aos exames d'habilitação para os titulos de capacidade, por isso, se ainda estava decidida a propôr-se a exame, que enviasse os documentos necessarios ao commissario dos estudos.

Rosa apresentou esta carta á viscondessa.

—Sempre estás decidida a propôr-te a exame?—lhe disse ella.

—Sim, minha senhora. É o meu mais fervente e afanoso desejo. Quero, senhora, que a instrucção e saber, que vos devo, e a vossa querida e chorada filha, aproveite ás crianças, que a pobresa retem na ignorancia e na rudeza. Se eu poder ser util, ainda que seja a uma só d'entre ellas, como, senhora, me reputarei feliz e bem paga do meu trabalho!

—Tinha a esperança de te conservar sempre na minha companhia—-replicou a viscondessa.—Occuparias para sempre o lugar do anjo, que Deus me levou, da minha Julia. Não queres, Rosa, ser minha filha?

—Ah! senhora, quero sim, ser vossa filha; isso ainda vai além da minha ambição. Mas recordo-me que era uma pobre rustica, e que só aos vossos beneficios devo a minha instrucção, e a cultura da minha intelligencia. Quero, senhora, dar de barato, e ter a vangloria de dizer que os vossos cuidados não foram perdidos, mas com isso não me devo tornar vaidosa, por que faltaria assim aos meus deveres. Serei sempre para vós uma filha adoptiva, carinhosa, humilde e terna, e que achareis sempre ao vosso lado, esforçando-se por pagar a sua divida de gratidão e reconhecimento: Recebendo e aceitando a vossa affeição e amisade, para mim preciosa e apreciavel, não me devo esquecer da classe onde nasci. O meu lugar é mais humilde; mas como elle parece bello e grandioso ao meu coração, quando me recordo do bem, que posso fazer a essas infelizes crianças, que vivem na bruteza, ensinando-lhe o que sei e que é obra vossa! Ha muito que concebi este meu projecto, e que o declarei a vossa filha: «Ás pobres rapariguinhas das aldéas—lhe disse eu—farei o mesmo que a snr.ª D. Julia me fez. Ensinar-lhes-hei a serem felizes com a sorte, que Deus lhes destinou n'este mundo; cultivarei o seu coração e o seu espirito, e por unica recompensa não quererei mais do que ouvil-as bem dizer os nomes da exc.ma viscondessa do Candal e de sua filha.»

—Rosa, minha querida Rosa—disse a viscondessa abraçando-a, e com os olhos rasos de lagrimas,—que Deus te pague a felicidade, e prazer, que me fazes nascer no coração com as tuas palavras.