—Carlota por ora não póde chorar, snr. Mendonça. Para tamanha dor não ha tal desafôgo por emquanto, e Deus sabe se alguma vez o haverá... Eu não conto já com a vida de minha sobrinha. Vamos ser n'este convento testimunhas de uma agonia muito atribulada. Deus lh'a dê curta, ou me leve a mim primeiro, por misericordia. Duas horas antes, snr. Mendonça, têl-a-hia talvez matado de alegria com a sua presença. Assim, matou-a, ha de matal-a de pena, de desespero, de dores infernaes, que não hão de obedecer aos confortos da religião.
—Que são confortos da religião?!—interrompeu Mendonça, carregando o sobre-olho com a turvação da blasphemia.
—Aterra-me essa pergunta, snr. Mendonça!
—Não se aterre, minha senhora: responda-me antes a uma pergunta: o Deus que ha de consolar Carlota é o mesmo que viu impassivel até este momento a minha desgraça e a d'ella?
—Altos juizos do Senhor! Por quem é não lhe falle essa linguagem á pobre Carlota! Ajude-a a supportar o peso da sua dor, com os olhos postos no céo. A impiedade não serve de nada, snr. Mendonça. A respiração da blasphemia traz para o interior do coração o fogo do desespero. Se a vir succumbida, dê-lhe animo para a paciencia, venha aqui todos os dias, dê-lhe a felicidade que a religião dos infelizes não condemna; amigo, seja o irmão extremoso da minha pobre sobrinha. Prometta-me isto, que eu vou prevenil-a pouco e pouco, até que ella possa encaral-o com firmeza e confiança. Se a accusar de inconstante, snr. Mendonça, olhe que a calumnia cruelmente. Ha de saber da bôca de Carlota que dois annos de martyrio ella tem amargurado n'este convento.
—Sei, senhora.
—Que desenganos, que torturas, que repetidas luctas com a desesperação, e que ferventes supplicas ella fazia a Deus para que a levasse, desde que lhe deram como certa a sua morte!
—Tudo sei, minha senhora. Já vê que a não posso condemnar. Eu venho pedir-lhe consolações, venho aprender a paciencia, venho pedir-lhe coragem para não tentar contra a minha vida.
—Peça, peça, e verá que a minha santa sobrinha lhe ensina a consolação do soffrimento, o bálsamo divino da paciencia, e o segredo de achar a alegria na vida que tão desgraçada lhe parece. Hoje não, snr. Mendonça; Carlota a esta hora precisa de que a animem, se é que Deus não quer que este golpe seja o ultimo no debil fio da sua existencia. Eu vou para junto d'ella, parece-me que a estou ouvindo pronunciar o seu nome, e eu corro a dizer-lhe que encontrei no snr. Mendonça o irmão, o amigo carinhoso da nossa Carlota. Deixa-me dizer-lhe isto, snr. Mendonça?
—Diga, diga, que é preciso salvarmol-a, ainda mesmo que ella me não torne a ver.