—Por que não ha de ella tornar a vel-o?! Então quer que a infeliz morra atormentada? Tenha compaixão de nós, snr. Mendonça! Outra freira d'esta casa talvez lhe pedisse que não voltasse aqui mais. Eu, pelo contrario, lhe rogo que venha todos os dias, que seja testimunha de todas as lagrimas salvadoras que ella chorar, que lhe prometta uma affeição pura sem manchar a santidade das obrigações religiosas de Carlota. Pois a amizade immaculada não é o reflexo do amor divino? O Altissimo não condemna o coração de minha sobrinha, cheio de um amor que ha de entrar com a alma na bemaventurança. Eu tenho presenciado n'esta casa affeições de muitos annos, de longas vidas dedicadas ao amor do coração, sem comtudo macularem a religiosidade dos deveres. Todo o mundo tem obrigação de respeitar o amor de minha sobrinha ao homem que ella chorou dois annos, chorava ainda no instante em que lhe appareceu. Venha, snr. Mendonça, venha aqui todos os dias, e verá como o tempo amacia os espinhos que o mortificam. Ha de chegar a esquecer-se das dores que soffre n'este momento, e a sentir as lagrimas de uma amizade santa e pura.

O dialogo foi cortado por uma pressurosa chamada a soror Rufina. Carlota recuperando os sentidos, chamava Francisco Salter de Mendonça, e forcejava por evadir-se dos braços que a sustinham. Algumas religiosas estavam passadas de religioso terror, vendo-a, ainda vestida com os hábitos da profissão, invocar tão afflicta e descomposta o nome profano de um homem que, no entender das servas de Deus, devia considerar-se de direito morto, quando o não estivesse de facto. Algumas escrupulisaram de assistirem ao debate da professa nos braços das mais novas, e congregaram-se na cella da escrivã para decidirem que o demonio entrara no corpo de Carlota. O voto da mais auctorisada era que se chamasse o capellão para exorcismar a energumena. Outra acrescentava que, no caso infausto de contumacia diabolica, seria util e piedoso dar parte do successo ao bispo, para que este obrigasse Francisco Salter a sair do Porto, como perturbador d'aquella casa.

Entretanto, soror Rufina, chamada da grade, onde deixara Mendonça esperando saber o estado de Carlota, pedira ás amigas menos escrupulosas de sua sobrinha que a deixassem só com ella.

—Francisco desejava ver-te—disse Rufina.—Logo que tenhas força e vontade irás ver o que é um amigo do coração, um anjo de paz que Deus te envia, assegurando-te que a felicidade do espirito não destroe a felicidade do claustro, que a esposa do Senhor póde ser a irmã estremosa do homem a quem amou.

Carlota cravava os seus grandes olhos no rosto risonho da tia, como se não comprehendesse. A freira continuou:

—Esperavas que Mendonça te viesse lançar em rosto a tua impersistencia, minha filha? Não, Carlota. Mendonça sabe tudo. Diz que vem procurar as tuas consolações, a fim de não tentar contra a propria vida. Vês tu, menina, que sublime encargo Deus te confia no momento em que as tuas angustias tocam o extremo? Tens de amparar a vida do nobre moço, de lhe dares consolações...

—Eu, meu Deusl eu consolal-o!—exclamou Carlota, arrancando impetuosamente o véo—Ha uma só consolação possivel para nós. Annullem-me os votos que fiz. Não posso ser freira, não quero ser freira. Deus sabe que fui atraiçoada, que professei, porque me mentiram, e eu não minto a Deus. Minha querida tia, eu sou agora mais desgraçada que nunca. Morro impenitente, se me não dizem que é possivel annullar um juramento falso que me obrigaram a dar.

—Carlota! tu não comprehendes a felicidade n'este mundo sem o crime?

—Crime! qual foi o meu crime? que fiz eu para merecer este castigo? Onde está Deus, que me não amparou antes d'este desgraçado passo que dei hoje, e me não mata agora, se não posso remedial-o?

—Isso é uma blasphemia, filha! o demonio da tentação não quer deixar-te gosar as alegrias puras que Deus te permitte.