—Alegrias, minha tia! Pois cuida que se engana assim a afflicção? Alegrias para mim, que estou condemnada a um carcere perpetuo, que hei de ver sempre entre mim e o esposo da minha alma uma barreira de ferro, que nem posso sequer esperar que elle venha recolher o meu ultimo suspiro?! Vel-o todos os dias... oh! esse é o mais horrivel de quantos padecimentos podia antever a minha imaginação! Antes acabar no desespero, sem vel-o! Antes morrer aqui abafada sem que elle seja a desgraçada testimunha das minhas agonias! Que hei de eu dizer-lhe, ou que ha de elle dizer-me a mim? Se elle me pedir contas dos meus juramentos, se me lançar na rosto a minha falta de fé, se me perguntar como pude eu sobreviver á certeza de que elle tinha morrido, que hei de eu responder?
—Diz-lhe que vestiste o habito de eterna viuvez, que escolheste a vida mais pura, para que as orações por alma d'elle fossem mais gratas ao Senhor. Diz-lhe antes que escolheste o mais longo paroxismo de uma morte atribulada; que podeste acreditar que elle violara o seu juramento; conta-lhe tudo quanto a traição inventou em teu damno; diz-lhe que ainda convencida de que elle morrera, depois de atraiçoar-te, lhe perdoaste, e caíste de joelhos aos pés da cruz, pedindo á misericordia infinita que lhe perdoasse o perjurio. Que mulher houve n'este mundo tão forte da sua innocencia como tu para poder apresentar-se com o rosto immaculado na presença do homem que lhe vem pedir contas? Qual é o teu crime, infeliz? Não te disseram a ti que Francisco esposara outra mulher no Rio de Janeiro? Não te affirmaram que elle morrera depois? O silencio de dois annos não estava sempre confirmando o cruel desengano das tuas esperanças? Quem te ha de accusar, Carlota?
—Elle, minha tia. Eu tinha obrigação de não acreditar a calumnia! Eu fui mais vil e miseravel que os infames que urdiram a minha desgraça! Não tenho animo de lhe apparecer, não sei como possa defender-se a minha fraqueza, nem quero defender-me, porque sou eu a que me accuso de indigna do perdão d'este homem, que eu fiz tão infeliz... Ha um só remedio, minha tia... Se m'o não dão, nem quero mais vel-o, nem prometto respeitar a religião que nos manda supportar com paciencia o peso da vida... e que vida, meu Deus!... que vida de inferno me seria esta, se eu não podesse arrancar do coração esta braza viva que me está atormentando!
—Pois que queres tu, Carlota! Valha-me a Virgem Santissima! que se ha de fazer, infeliz creatura?
—Annullem-me os votos, deixem-me ir lançar aos pés de quem póde restituir-me a minha liberdade. Não posso ser freira, declaro bem alto para que todos me ouçam n'esta casa, e me desculpem do mal que eu fizer; não posso ser freira, sem dar grandes escandalos, sem insultar a virtude das pessoas que me rodeiam, sem amaldiçoar a hora em que professei, e a religião que me manda morrer sem desabafo.
—Carlota! pelo amor de Deus!—exclamou soror Rufina, tapando-lhe a bôca, e abraçando-a com convulsivo terror. Teme o castigo do céo, minha filha. Arrepende-te d'essas blasphemias, e Deus não permittirá que tu comeces a expial-as n'este mundo com a deshonra... Tu não sabes o que disseste, Carlota. Foi a desesperação que a fez assim fallar, minha Mãe Santissima; não consintaes que ella seja castigada! Alcançae de vosso Filho um bocadinho de refrigerio para esta desgraçada que a dor enlouqueceu.
A freira continuou uma supplica assim afflictiva diante da imagem da Mãe de Deus. Carlota Angela correra impetuosamente para o mais escuro da casa, e lá prorompera, sósinha, em prantos, que não eram de contrição, nem sequer de desafôgo á sua grande angustia. Apertavam-a ainda os frenesis da desesperação enraivecida e impia. Rebatia com gestos furiosos as timidas consolações da tia e da meiga Dorothea, cujas palavras mais suavemente lhe deviam fallar ao coração, se a quasi demencia a não tivesse assaltado com vertigens de quarto em quarto de hora.
Francisco Salter recebeu, ainda na grade, a triste informação do estado de Carlota. Perguntou elle a soror Rufina, se teria duvida em entregar-lhe uma carta. A freira hesitou emquanto Mendonça lhe não disse que a carta seria um lenitivo para Carlota, e talvez um balsamo de completa cura.
Qual deva ser a efficacia d'esse balsamo infere-se da carta que se copia textualmente no capitulo immediato.