Dans le monde tout est confondu. Les juges ne sont plus que des bourreaux, qui offrent des victimes humaines á ce Dieu mensonger qu'on appelle le Droit et la Justice. L'homme sans foi devient un sage et le sage une dupe. Le héros qui donne sa vie pour la vérité n'est qu'un malheureux fou, qui s'est sacrifié pour une chimère. Qu'il meure désespéré sur les pavés sanglants, objet de l'indifférence de Dieu et de la raillerie des hommes!
Jules Simon. (Le Devoir.)
«Carlota.
«O destino esmaga-nos, se succumbirmos. Coragem, intrepidez de desesperados, é a nossa salvação... A sociedade pôz-nos um pé sobre o peito: o coração geme nas agonias da morte violenta; mas não morrerá. Affrontemos os assassinos. Vamos direitos ao encontro da infamia. A nossa vingança é viver. A nossa vingança é enxugar as lagrimas, e suffocar os gemidos. A nossa vingança é fazer a sociedade responsavel perante a sua propria consciencia do crime que ella propria ha de condemnar, depois que nos queimou na alma o germen da virtude.
«És freira, Carlota Angela. Forçaram-te a violar a palavra jurada, cujo cumprimento vinha pedir. Disseram-te que eu te atraiçoara e morrera. Tinhas obrigação de defender a minha honra, emquanto eu não viesse da sepultura pedir-te perdão da perfidia. Não te condemno, nem sequer me queixo. Entre a perversidade dos que te rodearam e a tua innocencia, a lucta era desigual. Fraqueaste, porque a desgraça exigia que eu bebesse o ultimo trago do meu calix. Eu não podia deixar de ser infeliz até á extrema d'este inferno. Aqui deve ser o termo final da minha condemnação. Não se póde ir mais além. Suicidar-me seria desmentir a fortaleza com que tenho arrostado a desventura até hoje. Chorar comtigo, devorar em silencio um dia e outro dia, na escuridade da desesperação, o resto de duas vidas tão miseraveis como as nossas, seria escolher a peior das mortes, o paroxismo prolongado, sem desafôgo nas crenças, sem refugio na esperança de outro mundo.
«Não creio, nem espero nada além d'esta vida, Carlota.
«Se te sentes arrebatada para a grandeza do Creador, repara na miseria das creaturas. D'este asqueroso lamaçal de sangue e lagrimas, para onde nos empurrou a mão humana, como queres tu que o espirito possa levantar-se para Deus?! Não ha justiça na terra, nem providencia no céo. O summo bem é um sonho dos corações opprimidos, quando a oppressão não estala os ultimos filamentos da fé, quando a angustia não é tamanha que cerre todos os respiradouros da alma. Se ha Deus, a sua inercia, á vista das atrocidades que soffremos, é igual á indifferença, á impotencia, ao nada. Nas minhas e nas tuas dores, a justiça eterna permaneceu insensivel, como se temesse ou approvasse a infamia dos homens.
«Não baixou do céo um anjo que te dissesse:
«Aquelle que te ama, vive em torturas, arcou já triumphante com a morte, esmagará por fim o preconceito da honra, e virá buscar-te. Não dês a Deus um coração que não podes dar. Não jures ante o altar um voto que implica a morte do homem que a estas horas, sobre o mar, me está pedindo que te dê forças para o soffrimento, que te illumine com um clarão de esperança, que te povôe os sonhos com a imagem d'elle.»
«Fallou-te assim um anjo, Carlota? Não. Em redor de ti estava o terror do desconforto, o silencio da desesperação, o desamparo, e as piedosas lamentações de algumas almas boas que te mostravam o céo, porque a vida se te havia convertido em inferno.